sábado, 24 de abril de 2021

Ausência



Ausência

 

A datar de minha saída do teu lado,

Muitos anos se passaram, e bem sei;

Esse vil tempo é mesmo empenhado,

Se alongara desde que me ausentei.

 

Sabes que o fiz por ensejo forçado,

Inteiramente alheio ao meu querer;

Tal além-mundo, de fato, acerbado,

Que me forçara a não mais te ver.

 

Nada temas, bela donzela elegida,

Malévolo algoz não mais nos ferirá;

Não mais causará o mal nessa vida,

Posto que com os ancestrais está.

 

Em breve, diva-flor, voltarei para ti,

Não há qualquer intensão de tardar;

Perfaz-se vasta esperança no porvir,

Nisto e tudo mais, podes acreditar.

 

E uma vez reedificado ao teu lado,

Tormenta alguma irá nos derrubar;

Pois mesmo quando jazia afastado,

Eu nutria a fé de voltar e te amar.

 

Nardélio Luz

240421 

sábado, 17 de abril de 2021

Reunidos


 
Reunidos

Gosto quando não faz uso de meias palavras
E expressa à vontade tudo o que tem a dizer;
Assim sinto seu coração aberto, sem aldravas,
E é comigo tudo aquilo que eu sou com você.

É importante que não apenas diga, mas faça,
Pois a palavra se desfaz, por mais que agrade;
Mas o exemplo transpõe a mais dura couraça,
Permitindo fazer comigo o que tiver vontade.

Esse é um direito já plenamente conquistado,
Com os seus modos de quem sabe o que quer;
Essa sensibilidade que me deixou encantado,
O jeito de menina e sensualidade de mulher.

Há uma história, engolida pelo longo passado,
Cujas conjunturas das eras a fizeram suprimir;
O zombeteiro destino levou um para cada lado,
Porém o fiel acaso nos trouxe de volta até aqui.

Desta feita não falo sobre sonhos impossíveis,
Nem tampouco há a timidez do desmerecimento;
Discorro da realidade, de sensações plausíveis,
De dois seres reunidos por um só sentimento.

Por ora gozemos nossos anseios com calma,
Sem juras e o fogo que se queima em ilusões;
Permitamos fluir o que vem de nossas almas,
Fazendo bater mais forte os nossos corações.

Nardélio Luz
170421

domingo, 28 de março de 2021

Serenidade



Serenidade

 

Todas as manhãs, quando a luz me chama para passear,

Uma letargia onírica cede o lugar às emoções do despertar,

Trazendo à lembrança desde os escassos flashes de sonhos

Até o que não fora feito e subsiste nos planos do porvir.

 

Nas iluminadas horas seguintes, singro todo um universo,

Tornando ou não concretas as coisas que já tinha planejado,

Enquanto brotam novas ideias para outras que desejo fazer,

E vem à mente tantas que deveria ter realizado e ignorei.

 

Há uma cadeia hierárquica que quase nunca é respeitada,

Como também não é aproveitado o tempo segundo deveria;

Na batalha entre os tais destino e acaso, arrisco o segundo,

Cuja conveniência embasa melhor minha crença abstrata.

 

Seguindo o lusco-fusco, vem a noite me tirar para dançar,

E a melodia é afável tanto quanto é gentil o enlace brumoso;

Ignorando o não feito, meu corpo flutua nos braços do sono,

E empresto minha alma à esperança de sonhar novamente.

 

Nardélio Luz

221220


 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Almas Afins


 

Almas Afins

 

Sim, ela me surpreendeu ao dizer

Que eu sou o seu sopro de ar fresco

E estando comigo consegue respirar.

Por conhecer bem a sua sinceridade,

Julgo que não diria se não o sentisse

E, assim sendo, me faculta acreditar.

 

Há tempos que ela é luz para mim,

Desde os idos que nos reencontramos

E, de algum modo, nos reconhecemos.

É certo que não começou neste plano,

No entanto, como o estamos vivendo,

Suspeito que tal dor não escolhemos.

 

Sim, ela tem seus arrependimentos,

Bem como também tenho eu os meus;

Contudo não há margens para engano.

É notório que às vezes nos revoltamos,

Mas apesar de tudo, só nos basta saber,

Que como ela me ama, também a amo.

 

É tão certo que até nos conformamos,

Que as agruras que teremos que passar

Nesta existência, o faremos separados.

Mas há outras vidas para vivenciarmos,

Que aqui seja então o final do expurgo,

E a próxima seja nosso veraz legado.

 

Nardélio Luz

230121

 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Sonhos Perfumados



Sonhos Perfumados

 

Dorme embalada em sonhos de alfazema,

“Dourada” em meio às divindades de cetim;

Mulher de sensibilidade à flor das pétalas,

É no onírico que às vezes clama por mim.

 

Ela se faz maior do que a fada e a feiticeira,

E ainda que de longe, me encanta e fascina;

Possui a força natural de fêmea dominante,

E tão meigo e inocente sorriso de menina.

 

É a altiva magia da infusão dos elementos,

Que desconecta dos distúrbios do passado;

Embala noites tranquilas de sono profundo,

Resultando em ternos sonhos perfumados.

 

Mesmo de longe, anula as más energias,

Nas madrugadas solitárias, é o meu ritual;

A força que tem dado sentido à minha vida

E assegurado o meu equilíbrio espiritual.

 

Nardélio Luz

030221


 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Flagelo


Flagelo

 

Eu a observava quase flutuando sobre a relva...

tais quais os onipresentes capuchos brancos

que gentilmente lhe faziam companhia,

vagando no céu azul da manhã morna.

 

O ar esparzia perfumes diferentes, exóticos,

e chegavam aos meus ouvidos descansados

os guturais versos das lampeiras gaivotas, que

estranhamente pareciam recitar Baudelaire.

 

O suave toque umedecido da maresia

trazia ligeiro conforto à minha pele quente

e um forte contentamento por estar perto do mar...

aquela sensação de fazer parte do mar.

 

Porém um vento súbito fustigou a relva alta ao redor,

chicoteando inclemente meu semblante surpreso,

tais quais os longos e suados cabelos dela

nas nossas noites de sôfrego arrebatamento.

 

O aguaceiro chegou repentino como a desdita...

não houve tempo para reagir... só para gritar...

enquanto trovões zombavam da minha impotência,

gargalhando do meu inútil prélio interior.

 

Arrastada para longe, ela não mais flutuava...

o céu azul se tornara escuro e bravio... o penhasco...

e num último vislumbre um raio feriu severamente

as trevas vingativas que nos flagelavam.

 

Nardélio Luz

200121


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Os Últimos Seis


 

Os Últimos Seis

 

Nicolas reinicia a projeção holográfica. O silêncio sepulcral permite aos seis tripulantes da Estação Espacial Internacional (EEI) ouvirem suas próprias respirações, enquanto observam pela terceira vez a mancha vermelha iniciar-se na Amazônia e se espalhar por todo o globo terrestre. Abaixo um contador digital para no número 28.

Aliens malditos! Só precisaram de 28 dias para dizimar oito bilhões de pessoas! — a médica chinesa perde sua calma habitual.

— Calma Nai-jian! — pondera tristemente o engenheiro brasileiro.

Em seguida ele desvia o olhar para os outros astronautas, fixando–o na bela Noreen. Dava-se bem com todos, mas se descobrira apaixonado pela astrofísica norte-americana e a ideia de repovoar o planeta com ela muito lhe agradava. Quando a crise começou ele fora tomado pela raiva devido àquela merda toda ter iniciado na base de pesquisas dos EUA na Amazônia, mas seu lado racional se aliara ao desejo secreto em defesa da moça. Ela não tinha culpa de seus compatriotas meterem o nariz em tudo. Tampouco esses a tinham, já que também foram marionetes dos alienígenas.

— Não podemos ser os únicos sobreviventes! — manifesta-se Nikolic, em apoio à colega chinesa. — O Kremlin e a maioria dos governos do mundo possuem bunkers antinucleares de alta tecnologia e...

— Camarada Nikolic — interrompe Nassaar —, nenhuma tecnologia terrestre é páreo para esses seres! Segundo os instrumentos de Norah não há sobreviventes.

— Nassaar está correto — a norueguesa especialista em robótica confirma friamente sob o olhar irado do biólogo russo. — O campo de força alienígena protegeu sua nave, a EEI e alguns satélites, mas o planeta foi varrido pelos vírus e pulsos eletromagnéticos. O que escapou ao vírus orgânico sucumbiu asfixiado nos complexos subterrâneos e subaquáticos.

A loiríssima Norah na maior parte do tempo é fria como gelo, mas embora todos ali sejam PhD nas suas respectivas áreas, gostara da sugestão de Nicolas para abrirem mão das formalidades.

Os alienígenas, que os humanos chamam de “Sombrios”, são silenciosos e usam telepatia para estudar os cérebros primitivos, mas tal recurso é uma via de mão dupla e foi desse modo que o sexteto soube de sua missão. A visão de outros mundos, com seres de diversas aparências e estágios evolucionários, nos quais o sistema tinha sido implantado, era algo extraordinário. Mas aquele fardo seria pesado demais para pessoas comuns, então os Sombrios selecionaram e influenciaram telepaticamente os seis que melhor preenchiam os requisitos genéticos, físicos e psíquicos, de forma que estarem isolados naquele local e tempo não era aleatório.

Nassaar era o único que possuía laços religiosos, mas a crença caíra perante tais portentos. Embora aterrorizado, como geneticista ficara fascinado pelo domínio alienígena da manipulação de DNA e soube que a consanguinidade não seria problema para os descendentes dos seis. Embora pudessem manusear a vida in vitro, os Sombrios escolheram lhes presentear com noções jamais sonhadas e permitir que propagassem a espécie naturalmente.

A internet, ondas de rádio e redes de energia espalharam o vírus tecnológico por todo o planeta antes dos pulsos eletromagnéticos varrerem toda a tecnologia, mas fora o vírus orgânico que deixara os cientistas incrédulos. Seu DNA alienígena fora programado para contagiar apenas humanos, preservando toda e qualquer outra forma de vida no planeta. O contágio se deu pelo ar e fora assintomático durante um tempo, para que fosse transportado aos lugares mais remotos do globo.

Quatro meses se passaram desde a aniquilação. Receberam todas as instruções e equipamentos, é chegada a hora. O timer da câmara criogênica abrirá automaticamente em 500 anos, quando a natureza já tiver se recuperado da degradação humana. Nesse interim estímulos cerebrais tornarão os seis mais evoluídos para sobreviverem à nova realidade. São a última chance da humanidade e se repetirem os erros de seus antepassados, a raça será extinta.

— O que está fazendo aqui? — indagou Noreen, sonolenta.

Nicolas observa a jovem em trajes de dormir e pensa que ela nem se dá conta da própria sensualidade. Possuindo-a agora, terá belos sonhos nos próximos 500 anos.

— Não Nicolas! O que está fazendo? — os protestos verbais são paralelos às tentativas de rechaçar o engenheiro.

— Vamos doçura, eu sei que você também me quer! — suas mãos parecem tentáculos a explorar o corpo esguio.

— Nãoooo!!! Eu e Nassaar...

O protesto é enérgico e traz à tona uma ira que nem os testes sombrios haviam detectado naquele homem. Quase rosnando, ele a cala com a própria boca enquanto as mãos rasgam as sedas. Sem forças, Noreen morde o lábio inferior do algoz, arrancando sangue e um urro de dor. O impacto do soco é a última coisa que ela sente antes de desfalecer.

— Cadela! Trocou-me por aquele árabe magrelo, mas será minha de qualquer jeito!

Dentro da cabeça irada soa um pensamento dos Sombrios. Algo a ver com arrependimento... Escolha errada...

— Vocês não podem me impedir, demônios malditos! — grita sobre o corpo inconsciente. — Em meio milênio não estarão aqui e serei o único capaz de pilotar o módulo que levará seus bichinhos de estimação de volta a Terra!

Noreen sente dores nas partes íntimas, seios e rosto. Tentara disfarçar com maquiagem, mas precisou de uma boa mentira para justificar o inchaço. A dor psíquica é indizivelmente pior que a física, mas vingará aquela atrocidade quando acordar dali a meio milênio, tão logo o maldito aterrisse o módulo no planeta. Algo pior que a morte o fará se arrepender daquela noite! Sem se importar com os aliens asquerosos monitorando seus pensamentos, ensaia um sorriso amargo enquanto a gosma criogênica cobre sua nudez ferida.

Noutra órbita, algo parecido com tristeza preenche a inteligência coletiva oriunda de outra galáxia.

Nardélio F. Luz