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domingo, 21 de janeiro de 2024

Jantar



Jantar
 
Ela adora vinho branco e eu prefiro cerveja, mas claro que a acompanho prazerosamente no vinho, sobretudo quando aceita o convite para jantar em minha casa. Minha agora, mas futuramente nossa, já que logo vamos nos casar.
 
Difícil mesmo é jantarmos de verdade, já que invariavelmente vamos beliscando alguns petiscos que preparo enquanto bebemos, rimos, brincamos, cantamos... E quando finalmente termino o jantar, já estamos saciados. Ao menos saciados dos petiscos.
 
A essa altura uma leve névoa de embriaguez já permeia nossos sentidos, aumentando os beijinhos, as brincadeirinhas, tornando os abraços cada vez mais longos e apertados... Até que nossa libido, sem paciência, começa a gritar.
 
A névoa se faz fogo e um banho à dois parece boa ideia para arrefece-lo, mas os corpos nus aumentam os desejos correspondidos e, sob a ducha morna, os dedos se tornam tentáculos e as bocas revezam gulosas entre uma e outra e outros segredos ferventes.
 
Nunca me lembro como vamos parar na cama, só que estamos lá para finalizar com louvor o que iniciamos sob o chuveiro.
 
E em mais um jantar, ela acaba indo embora sem realmente jantar. Mas, da próxima vez será diferente...
 
Nardélio Luz
210124
  

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Más Decisões


Más Decisões
 
 
— E agora José? — quase gritei, socando inutilmente o volante.
 
— Hã?! Quem é José? — Jane indaga, desconcertada, aparentando um pouco menos nervosa que eu.
 
— Nada não! — respondo rápido, tentando disfarçar um pouco a irritação.
 
— Aposto que Drummond nunca passou por um perrengue desses! — ela demonstra finalmente ter entendido a alusão ao poema, na minha tentativa de desabafo.
 
— É claro que não! — exclamo laconicamente, enquanto aciono a maçaneta da porta.
 
Fora do carro, o frio só perde em intensidade para a escuridão, quase total, apesar do mostrador fluorescente no relógio de pulso dizer que são apenas 19:47.
 
— Fique aí dentro! — quase ordeno à Jane. — Está muito escuro e frio aqui fora.
 
Não posso ver na escuridão, mas posso imaginar o belo rosto feminino crispado pela irritação, quando ela quase grita:
 
— Eu te avisei! Eu te avisei!!!
 
— Avisou o que, criatura? — quase grito também.
 
— Que deveríamos ter deixado para ir amanhã cedo e...
 
— Não seja histérica! É apenas um pneu furado, o trocarei rapidamente!
 
— Você sabe... — o medo é bem definido na irritada voz de Jane — Você sabe o que dizem sobre essa região... essa estrada e a maldita floresta!
 
— Isso não passa de crendices, querida! — tentei parecer mais calmo, a fim de evitar outra discussão inútil. — Fique agasalhada aí dentro, em meia hora estaremos em marcha novamente.
 
— Você e suas decisões idiotas!!!
 
A irritação dela é tamanha que, se pudesse, me esganaria, mas faz uso do bom senso e segue meu conselho, fechando totalmente a porta e impedindo que o ar gelado — ou qualquer outra coisa — entre no carro.
 
Observo em vão os arredores. Uma densa neblina parece penetrar meus ossos, causando tremores pelo corpo todo e contribuindo para a escuridão total nesse trecho de floresta, cujas copas das árvores quase se juntam sobre a estrada, formando uma espécie de túnel que mesmo durante o dia é anormalmente frio o umbroso.
 
Desde que mudamos para o lugarejo, há pouco mais ou menos três anos, temos ouvido histórias de acontecimentos estranhos nesse trecho da estrada. Acidentes violentos, desaparecimentos... e variadas histórias de tirar o sono de pessoas impressionáveis.
 
— Veste a blusa! — ouço a voz de Jane, abafada pelos vidros fechados.
 
Abro a porta traseira somente o instante de pegar a jaqueta sobre o banco e pedir a ela que acione o botão do porta-malas. A luz dos faróis tenta penetrar as trevas, mas torvelinhos de neblina rodopiam à frente, parecendo zombar da tentativa.
 
A pouca luz que sai das janelas proporciona uma leve penumbra, suficiente para mostrar o quão os pneus estão próximos de uma vala de escoamento pluvial. Um arrepio percorre minha espinha do cóccix à nuca, enquanto caminho colado ao carro para evitar cair na vala.
 
“Tenho que me lembrar de comprar uma lanterna”, penso, irritado comigo mesmo.
 
O barulho ao deslocar o pneu de estepe sob o tapete parece exageradamente alto, e só então me dou conta do total silêncio do lugar. Nenhum barulho do vento nas árvores, nenhum grilo, nenhum animal noturno, nada. Tudo ao redor é estranho, macabro, como se não fosse capaz de suportar vida.
 
Novamente o calafrio na espinha, desta vez acompanhado de lágrimas furtivas.
 
Com alguma dificuldade, arrasto-me pela estrada, a fim de evitar a vala do acostamento. O peso do pneu na mão direita e do macaco e chave de rodas na esquerda proporcionam algum equilíbrio, mas me fazem arquejar e gemer, evidenciando o quanto estou fora de forma.
 
Um sorriso amargo desfigura meus lábios, zombando da vã promessa silenciosa de voltar a me exercitar e do cuidado idiota de andar rente ao carro, mesmo sabendo que dificilmente poderia ser atropelado por outro veículo nessa via morta.
 
A chave de rodas em L escorrega dos meus dedos e produz um estridente barulho metálico ao tocar o estranho calçamento de pedras, semicoberto pela poeira e folhas secas.
 
O barulho, alto demais nesse silêncio sepulcral, aumenta a sensação de medo que iniciou quando saí do carro e vem crescendo desproporcionalmente, arrancando-me um pensamento em voz alta:
 
— Termine logo com isso e dê o fora desse lugar!
 
— Falou comigo? — a voz de Jane surge, quase inaudível, evidenciando que está atenta.
 
— Não... Não! — trato de responder logo, antes que ela tenha a ideia de sair do carro.
 
Ajoelho-me próximo ao pneu murcho e, usando mais o tato do que a visão na semiescuridão, começo a desapertar os parafusos.
 
A raiva pelo meu descuido de não ter uma lanterna afugenta parcialmente o medo e a estranheza por aquele trecho da estrada ser calçado de pedras totalmente irregulares, como nas ruas antigas das cidades históricas, pavimentadas à sangue e suor dos infelizes escravos.
 
A penumbra proporcionada pelos faróis à frente e a pouca luz interna que sai das janelas é suficiente para ajudar a identificar o suporte do macaco e, com a ajuda do tato, o ajusto e aciono a manivela. A frente do carro começa a se erguer e ouço a música suave brotando abafada do interior, contrastando com o silêncio externo: "Now I send what I can to the man..."
 
“Muito bem, Jane encontrou uma bela distração”, penso satisfeito.
 
A balada melancólica incute algum ânimo e acelero o trabalho, sentindo as gotas de suor brotarem sob a roupa, apesar do frio anormal.
 
Consigo deslocar o pneu murcho e, ao forçá-lo para fora, sinto uma dor aguda na mão direita. Não consigo conter um xingamento e, ao recolhê-la instintivamente, vejo o líquido escuro e espeço escorrendo abundante.
 
— Merda!!! Merda!!! — A expressão sai bem mais alta que a música abafada, mas por sorte Jane não ouve.
 
Enquanto enrolo uma flanela suja de graxa na mão ferida, examino melhor o pneu e identifico o que causou o furo e, também, o corte na minha mão: uma espécie de lâmina curva, à primeira vista confeccionada toscamente de osso.
 
Novamente o calafrio percorre a espinha, tão incômodo quanto a dor na mão e o suor já abundante que gela na minha fronte.
 
Pode ser minha imaginação, mas pela primeira vez ouço um som vindo da floresta, imediatamente do outro lado do carro. O coração ameaça sair pela boca e dou um salto ágil, ficando de pé instantaneamente. O movimento brusco causa uma vertigem e preciso escorar no carro, torcendo para não derrubar o macaco, fixado de forma estouvada no escuro.
 
Consigo ouvir as batidas pesadas no tórax, sincronizadas à incômodas constrições na cabeça. Aguço as vistas, mas não ultrapassam a escuridão nevoenta e o silêncio volta a ser quebrado apenas pela melodia abafada e as inusitadas batidas cardíacas.
 
Jane permanece sentada — com cara de poucos amigos — e nada percebe, reforçando minha desconfiança que aquele ruído de gravetos quebrando não passa de fruto da minha imaginação, exacerbada pelo medo.
 
— Está tudo bem? — ouço a voz abafada de Jane.
 
Limito-me a acenar que sim com a cabeça e me abaixo devagar, ignorando o mal-estar. Outra vez uno a pouca visão ao tato e me ponho a trabalhar o mais rápido que consigo. A quarta música da playlist inicia lá dentro quando termino de apertar o quarto e último parafuso aqui fora. O rangido seco do ferro contra ferro ecoa agudo no silêncio tumular.
 
Arrasto o macaco de baixo do carro e me levanto devagar, com a chave de rodas na mão enfaixada. Neste instante, mais sinto do que vejo o carro sacudir de forma violenta. Sobre a música, Jane grita alguma coisa. Não compreendo as palavras desconexas, mas a luz de teto mostra claramente o olhar de desespero no rosto crispado de pavor.
 
Por cima do carro, diviso um vulto na escuridão, entre caminhando e manquitolando sobre a outra beirada da valeta. Uma segunda criatura logo surge dentro da vala, galgando a borda de pouco mais ou menos metro e vinte com um único salto. Numa fração de segundos, meus olhos arregalados registram pelos espessos, que a pouca luz das janelas não permite definir se são da coisa ou se essa veste trapos de peles.
 
Me abaixo instintivamente, com o coração acelerado. A onda de horror ameaça arrebatar minha sanidade, embotando totalmente o raciocínio.
 
Entre dar a volta pela frente iluminada do veículo e enfrentar as bestas com aquela pequena ferramenta e correr até o porta-malas aberto, na tentativa de achar uma arma mais eficaz, opto pela segunda opção.
 
Tento pensar rápido, encontrar uma linha segura de ação, mas meu raciocínio parece atolado em um pântano lodoso.
 
“Talvez... Se for rápido, posso pegar o mais próximo de surpresa...”, penso no mais completo desespero. “Se jogá-lo na valeta... Entro no carro, acelero e...”
 
Os torvelinhos de neblina fria dançam na penumbra ao redor, como se zombassem da minha impotência na situação desesperadora. As pernas bambas não permitem velocidade, mas tento acelerar o máximo possível de cócoras para alcançar o porta-malas pouco iluminado.
 
À princípio sinto a fisgada aguda nas costas, que logo evolui para uma explosão nauseabunda de dor e pequenas luzes multicores, semelhantes a fogos de artifício. A sensação de algo irrompendo sacode meu corpo numa violência instantânea, e instintivamente abafo o grito de dor para apenas um grunhido, que ainda assim irrompe muito alto nesse silêncio dos infernos.
 
O gosto metálico de sangue alcança minhas papilas gustativas antes mesmo de enxergar a ponta afiada de osso ensanguentado, que brotou de repente no meu peito.
 
Minhas pernas parecem desaparecer e caio de quatro, com a tosse convulsiva expulsando consigo um jorro do espesso líquido escuro. Por um milésimo de segundo alimento a expectativa de racionalizar e entender o que está acontecendo.
 
A agonia não cede e o ar parece pesado demais, impossível de chegar aos pulmões. As lágrimas irrompem descontroladas, trazendo um pensamento totalmente fora de hora:
 
“Jane nunca esteve tão certa! Esta foi outra das minhas malditas más decisões!”
 
As lágrimas transformam a penumbra em escuridão total; a dor excruciante finalmente parece ceder um pouco. Já não ouço mais meu coração, apenas os gritos abafados de Jane e o que parece ser a tentativa de ignição de um motor.
 
A música... parece estar se afastando... Agora toca muito longe, quase inaudível. Bob Dylan bate às portas do Céu: “That long black cloud is comin' down...”.
 

Nardélio Luz

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Os Últimos Seis


 

Os Últimos Seis

 

Nicolas reinicia a projeção holográfica. O silêncio sepulcral permite aos seis tripulantes da Estação Espacial Internacional (EEI) ouvirem suas próprias respirações, enquanto observam pela terceira vez a mancha vermelha iniciar-se na Amazônia e se espalhar por todo o globo terrestre. Abaixo um contador digital para no número 28.

Aliens malditos! Só precisaram de 28 dias para dizimar oito bilhões de pessoas! — a médica chinesa perde sua calma habitual.

— Calma Nai-jian! — pondera tristemente o engenheiro brasileiro.

Em seguida ele desvia o olhar para os outros astronautas, fixando–o na bela Noreen. Dava-se bem com todos, mas se descobrira apaixonado pela astrofísica norte-americana e a ideia de repovoar o planeta com ela muito lhe agradava. Quando a crise começou ele fora tomado pela raiva devido àquela merda toda ter iniciado na base de pesquisas dos EUA na Amazônia, mas seu lado racional se aliara ao desejo secreto em defesa da moça. Ela não tinha culpa de seus compatriotas meterem o nariz em tudo. Tampouco esses a tinham, já que também foram marionetes dos alienígenas.

— Não podemos ser os únicos sobreviventes! — manifesta-se Nikolic, em apoio à colega chinesa. — O Kremlin e a maioria dos governos do mundo possuem bunkers antinucleares de alta tecnologia e...

— Camarada Nikolic — interrompe Nassaar —, nenhuma tecnologia terrestre é páreo para esses seres! Segundo os instrumentos de Norah não há sobreviventes.

— Nassaar está correto — a norueguesa especialista em robótica confirma friamente sob o olhar irado do biólogo russo. — O campo de força alienígena protegeu sua nave, a EEI e alguns satélites, mas o planeta foi varrido pelos vírus e pulsos eletromagnéticos. O que escapou ao vírus orgânico sucumbiu asfixiado nos complexos subterrâneos e subaquáticos.

A loiríssima Norah na maior parte do tempo é fria como gelo, mas embora todos ali sejam PhD nas suas respectivas áreas, gostara da sugestão de Nicolas para abrirem mão das formalidades.

Os alienígenas, que os humanos chamam de “Sombrios”, são silenciosos e usam telepatia para estudar os cérebros primitivos, mas tal recurso é uma via de mão dupla e foi desse modo que o sexteto soube de sua missão. A visão de outros mundos, com seres de diversas aparências e estágios evolucionários, nos quais o sistema tinha sido implantado, era algo extraordinário. Mas aquele fardo seria pesado demais para pessoas comuns, então os Sombrios selecionaram e influenciaram telepaticamente os seis que melhor preenchiam os requisitos genéticos, físicos e psíquicos, de forma que estarem isolados naquele local e tempo não era aleatório.

Nassaar era o único que possuía laços religiosos, mas a crença caíra perante tais portentos. Embora aterrorizado, como geneticista ficara fascinado pelo domínio alienígena da manipulação de DNA e soube que a consanguinidade não seria problema para os descendentes dos seis. Embora pudessem manusear a vida in vitro, os Sombrios escolheram lhes presentear com noções jamais sonhadas e permitir que propagassem a espécie naturalmente.

A internet, ondas de rádio e redes de energia espalharam o vírus tecnológico por todo o planeta antes dos pulsos eletromagnéticos varrerem toda a tecnologia, mas fora o vírus orgânico que deixara os cientistas incrédulos. Seu DNA alienígena fora programado para contagiar apenas humanos, preservando toda e qualquer outra forma de vida no planeta. O contágio se deu pelo ar e fora assintomático durante um tempo, para que fosse transportado aos lugares mais remotos do globo.

Quatro meses se passaram desde a aniquilação. Receberam todas as instruções e equipamentos, é chegada a hora. O timer da câmara criogênica abrirá automaticamente em 500 anos, quando a natureza já tiver se recuperado da degradação humana. Nesse interim estímulos cerebrais tornarão os seis mais evoluídos para sobreviverem à nova realidade. São a última chance da humanidade e se repetirem os erros de seus antepassados, a raça será extinta.

— O que está fazendo aqui? — indagou Noreen, sonolenta.

Nicolas observa a jovem em trajes de dormir e pensa que ela nem se dá conta da própria sensualidade. Possuindo-a agora, terá belos sonhos nos próximos 500 anos.

— Não Nicolas! O que está fazendo? — os protestos verbais são paralelos às tentativas de rechaçar o engenheiro.

— Vamos doçura, eu sei que você também me quer! — suas mãos parecem tentáculos a explorar o corpo esguio.

— Nãoooo!!! Eu e Nassaar...

O protesto é enérgico e traz à tona uma ira que nem os testes sombrios haviam detectado naquele homem. Quase rosnando, ele a cala com a própria boca enquanto as mãos rasgam as sedas. Sem forças, Noreen morde o lábio inferior do algoz, arrancando sangue e um urro de dor. O impacto do soco é a última coisa que ela sente antes de desfalecer.

— Cadela! Trocou-me por aquele árabe magrelo, mas será minha de qualquer jeito!

Dentro da cabeça irada soa um pensamento dos Sombrios. Algo a ver com arrependimento... Escolha errada...

— Vocês não podem me impedir, demônios malditos! — grita sobre o corpo inconsciente. — Em meio milênio não estarão aqui e serei o único capaz de pilotar o módulo que levará seus bichinhos de estimação de volta a Terra!

Noreen sente dores nas partes íntimas, seios e rosto. Tentara disfarçar com maquiagem, mas precisou de uma boa mentira para justificar o inchaço. A dor psíquica é indizivelmente pior que a física, mas vingará aquela atrocidade quando acordar dali a meio milênio, tão logo o maldito aterrisse o módulo no planeta. Algo pior que a morte o fará se arrepender daquela noite! Sem se importar com os aliens asquerosos monitorando seus pensamentos, ensaia um sorriso amargo enquanto a gosma criogênica cobre sua nudez ferida.

Noutra órbita, algo parecido com tristeza preenche a inteligência coletiva oriunda de outra galáxia.

Nardélio F. Luz

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Submerso




Submerso


O ápice do desespero tornou irrelevante a lembrança do que e por que estava ali. Imperava, não obstante, a certeza que o ambiente e as sensações eram reais demais para estarem no onírico. Portanto, estava ferrado!

Ao recobrar a consciência me dei conta que avançava inapelavelmente para o implacável desconhecido. Estava confuso, todavia cônscio de continuar torcendo com veemência para aqueles últimos minutos passarem rápido em vez de se desdobrarem pela eternidade, como pareciam estar fazendo.

Os cabos estavam partidos e não havia energia para fazer funcionar a nau condenada. A estrutura construída para ser inquebrável estava rompida e a pressão esmagadora aumentava conforme as toneladas de aço afundavam para a intrafegável escuridão abissal.

Ouvira ou lera em algum lugar que nos momentos finais víamos toda a vida passar rapidamente diante da gente. Provavelmente isso teria sido válido como distração, um bálsamo para minha mente descrente, mas comigo não acontecera. Talvez por eu não merecer tal clemência ou ainda porque não houvesse nada que valesse a pena ser revisto.

A capacidade de raciocinar diminuía na mesma proporção que o zumbido aumentava nos meus tímpanos. Com a compressão já prestes a implodir meu crânio, a dor dilacerante permitiu duas últimas sensações que levaram a uma breve resignação, pungente e odiosa ao mesmo tempo, porém estranhamente reconfortante: a certeza de estar perante o inevitável e que deveria aguentar firme já que em minutos tudo findaria.

A única decepção foi não apagar antes de sentir os ossos se partindo com estalos macabros, rasgando tecidos e penetrando órgãos enquanto todo meu corpo se contraía sob a terrível compressão, inundando os pulmões com meu próprio sangue e expulsando meus olhos para fora das órbitas, sem nada enxergar naquela escuridão ignota.

Mas deveras pior foi descobrir que — talvez para ficar uma cicatriz na alma como lembrança da nossa passagem por aqui — os receptores de dor mantêm-se funcionais até o último lampejo da consciência.

Nardélio F. Luz

terça-feira, 28 de março de 2017

Hi-Fi





Hi-Fi

Todos os dias, pontualmente as sete, dona Silvia e dona Vilma — vizinhas há décadas — saem de suas casas com vassouras em punho e grande empolgação para discutirem os capítulos das novelas, exibidos na noite anterior.
A essa altura ambas já serviram o café e despacharam os maridos para o trabalho e os filhos para a escola, estando livres para o ritual diário de varrer as folhas das Sibipirunas da praça em frente, que na primavera tecem um belíssimo tapete amarelo sobre o gramado e as calçadas.
Mas naquela manhã dona Vilma se atrasou alguns minutos e, quando saiu, encontrou dona Silvia “nos cascos”.
— O que houve, mulher? — a recém-chegada indagou cautelosa.
— Foi o descarado do vizinho que me faltou com respeito! — dona Silvia respondeu naquela irritadiça voz aguda. — Só não chamei a polícia para evitar fofocas e...
— Mas, qual vizinho?
— Walter Pilico, o viúvo grisalho de Araxá, 66 anos, comerciante, cuja esposa morreu de câncer, pai de uma filha e dois filhos, dois netos, que se mudou sozinho para a casa à esquerda da minha anteontem...
— O que aconteceu de tão grave, Criatura? — tornou a indagar dona Vilma, já aliviada da preocupação por conhecer bem a amiga.
— Imagina que enquanto eu a esperava, ele saiu para pegar o jornal. Usava apenas bermudas e camiseta regatas que lhe ressaltava a musculatura e...
— Sim, mas e daí? — a recém-chegada já perdia a paciência.
— E daí que — a irritação de Silvia crescia — gentilmente ofereci uma xícara de café fresquinho e ele não aceitou.
— Mas que mal há nisso?...
— “Devido à gastrite não posso aceitar o cafezinho, mas agradeço e aceito sua senha do Wi-Fi.” — Foram essas as palavras exatas do safado!
— E o que vem a ser Wi-Fi, Silvia?
— Não faço ideia, mas só pode ser alguma sem-vergonhice!

Nardélio Luz

domingo, 11 de dezembro de 2016

No Acampamento II



No Acampamento II

Estávamos tão próximos que quase podia sentir seu hálito. Os olhos faiscavam na penumbra da noite. Não pude ler nada neles, mas meus sentidos meio embotados pelo álcool diziam que ela sentia algo também. Talvez não algo tão arrebatador quanto eu, mas parecido.
— O que foi? — ela tornou a abrir o sorriso.
— O que está acontecendo conosco? — perguntei, tentando tomar coragem para beijá-la.
— Como assim? — ela pareceu genuinamente confusa.
Caramba, e se eu estiver enganado? E se eu avançar o sinal e acabar perdendo sua amizade?
— Não! Não é nada!
Irritado com minha timidez, que às vezes nem o álcool conseguia aliviar, levantei-me do tronco antes que ela notasse minha excitação, dirigi-me rapidamente à beirada do rio e saltei de ponta cabeça. O barranco ali tinha menos de dois metros e não foi o impacto na água fria que me preocupou, mas um ardume repentino no tórax.
Quando retornei à superfície, ela estava próxima ao barranco, visivelmente irritada.
— Você está ficando doido!?
Não respondi, apenas virei de costas e deixei que a água turva me levasse. Sob a luz pálida da lua notei um filete escarlate no meu peito, mas voltei a atenção para a correnteza, que me levou até os galhos da árvore-abrigo, sob a qual montamos acampamento. Esses pareciam tentáculos descendo do imenso tronco até tocar a água corrente.
Enquanto subia pelo galho semi-horizontal percebi que o filete de sangue havia aumentado, mas constatei que não era grave. Apenas algo — provavelmente um galho solto — sob a água que arranhou meu tórax. Despejei um pouco de vodca e senti o ardume aumentar, mas não mais que a vergonha por ter feito aquela molecagem.
O violão tinha cessado e as vozes afinadas de Chrystian & Ralf soavam no grande rádio à pilha. Em meio à algazarra em volta da fagueira ouvi a vinheta “Fim de Noite” ao mesmo tempo em que ela chegava. Após verificar que meu arranhão não era sério, aplicou-me um merecido sermão, inclusive frisando a regra que eu mesmo havia criado no tocante a ninguém entrar na água depois que bebesse.
— Você está certa...
Ela estava sempre certa! Novamente aquele sentimento confuso de não querer ficar longe e seu perfume suave trazendo de volta a excitação que a água fria tinha aplacado.
— Por favor, não faça mais isso! — a voz dela estava embargada.
— Não farei. Desculpe-me!

Nardélio F. luz

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

No Acampamento



No Acampamento

Afastei-me da fogueira e sentei pensativo num velho tronco à beira do rio. Estava tão absorto com os ruídos noturnos e a contemplação da lua que tive um pequeno sobressalto ao sentir a mão dela no meu ombro.
— Será que vai chover?
— Está se formando algumas nuvens — apontei com o queixo para a lua quase escondida, sem ter certeza se ela notou meu gesto na penumbra —, mas se chover será lá pela madrugada.
— E você não trouxe barraca, não é? — o sorriso dela era encantador.
Voltei os olhos para o acampamento onde nossos amigos se divertiam ao som do violão.
— Não achei necessário. Mas se for preciso, pegarei uma beirada com alguém.
Coloquei um tom malicioso nas últimas palavras, mas ela não pareceu notar a brincadeira. Era a jovem mais doce e inocente que já havia conhecido. Esbocei novo sorriso e optei por não ser inconveniente.
— A lua está linda — mudei de assunto, sem qualquer ênfase na voz.
— Está mesmo — ela concordou, enquanto se sentava ao meu lado no tronco apodrecido.
Éramos amigos. Tão amigos que nunca antes a tinha notado como mulher, mas naquele momento senti algo inusitado. Talvez tivesse exagerado na vodca com abacaxi a ponto de exacerbar minha libido, ou fora o perfume dela trazido pela suave brisa noturna. Não sei. E para ser sincero, não é relevante. O fato é que minha amiga era muito bonita e de repente todos os meus sentidos passaram a captar sua feminilidade. Ela amava outro, eu amava outra. E ambos tínhamos sido traídos recentemente.
— Não está com frio? — ela se referiu ao fato de eu estar sem camisa, pois todos estivemos nadando antes de começarmos a beber.
— Não — respondi simplesmente. — O clima está gostoso.
— Eu preferi me trocar, para evitar qualquer resfriado — ela quase sussurrou.
— Que perfume você usa? — indaguei, observando suas malhas leves.
— Não é perfume, é loção hidratante para o corpo.
“E que corpo!”, pensei ao mesmo tempo em que sentia algo novo; incômodo, mas delicioso.
— “Algodão”, da Natura. Gosta?
— Muito.

Nardélio Luz

031116

domingo, 3 de julho de 2016

Biluxa

https://www.flickr.com/photos/37618484@N07/8682951287


Biluxa


Sentado no velho tronco — cujo cerne secular servira de banco a várias gerações — observei disfarçadamente o velho ao meu lado. A trêmula mão esquerda repleta de calos segurava o prato — já quase sem esmalte devido aos inúmeros tombos — enquanto a direita levava o garfo cheio à boca. Era estranho como ele abria exageradamente a mandíbula, quase rasgando a pele fragilizada pela idade, forçando ao máximo os sulcos queimados de sol. A barba de três ou quatro dias acentuava ainda mais a decrepitude e, sem entender porque, meu coração se enternecia a ponto de lágrimas quase brotarem dos meus olhos. Eu disfarçava e pegava uma garfada do meu próprio prato, não era prudente demonstrar emoção àqueles seres xucros ao redor, totalmente alheios aos meus sentimentos. Meu coração se constringia com a mistura ádvena de amor e pena por aquela criatura simples, que nada sabia da vida fora da fazenda e do arraial que morava à légua e meia dali, mas dava aulas a qualquer mestre acadêmico na disciplina de “viver”. Percurso de légua e meia, aliás, que fizera a pé de manhã e a tarde em pelo menos 60 dos seus mais de 70 anos de vida calejada pelas intempéries. Diziam que Biluxa era apelido, que ele tinha um nome, mas nunca houvera qualquer documento que o provasse. Seus olhos tristes nunca tinham mirado uma cidade e seus pés calejados jamais sentiram a maciez do couro de um sapato, mas aquilo não o incomodava em absoluto, já que ali tinha tudo o que precisava para viver. Com a angústia apertando inexplicavelmente minha garganta, larguei o prato pela metade, a comida tinha esfriado. Ele colocou o dele — já vazio — de lado sobre o tronco, sacou palha, canivete e um pequeno pedaço de fumo da algibeira. Sem fazer ideia da minha admiração, aquele ser quase mítico intercalou as fedidas baforadas com alguns dedos de prosa dirigidos a um ou outro dos companheiros, sobre qualquer assunto que lhe vinha à telha grisalha. Era um anjo num oásis de paz, livre do jugo religioso e de toda e qualquer degradação humana. Deve ter subido direto para o céu, pois embora sábio na arte de viver, partiu deste mundo quase tão inocente quanto chegou, e sem deixar qualquer desafeto.


Nardélio F. Luz