sábado, 1 de junho de 2019

Agonia




Agonia


Desencantos mil dessa treva pervígil,
Em que se perpetuam delírios febris;
Numa orla que a luz, espada incisiva,
Não penetra a horda de imagens vis.

Redemoinhos de desalentos gélidos
Osculam a ardência do suor pegajoso;
O corpo definha dentre o gelo e o fogo
E a mente flutua no limbo brumoso.

A busca maquinal por futura manhã
Aspira uma trégua pra alma cansada;
Onipresente ansiedade, pior das vilãs,
Delegando crueza à servil madrugada.

Não há clemência na zona limítrofe,
Submetido a ritos e delírios insanos;
Aonde a luz se despe de todo o poder,
Incutindo aflição a esse orbe arcano.

Uma noite, quiçá, um sonho retorne,
Conduzindo um bálsamo pra solidão;
O horror da insônia afrouxe esse laço,
E o sono aplaque este velho coração.


Nardélio Luz
300519

quarta-feira, 6 de março de 2019

Balada Pra Felicidade




Balada Pra Felicidade


Minha filha, você é a luz do meu caminho,
É assim desde que nasceu, desde sua menor idade;
É a minha progênita, minha vida, o meu carinho,
É a minha harmoniosa balada pra felicidade.

Você possui o calor e todo o esplendor do sol,
É pura luz humana, é a própria candura;
Nas escuras noites de chuva é um potente farol,
Que consegue dissipar toda a minha amargura.

De uma doce menina a uma grande mulher,
Por todos os caminhos e prismas você brilha;
Como a admirável guerreira que mantem a fé,
É uma zelosa mãe e não menos amorosa filha.

Sabe... Em alguns pontos, quiçá bem distintos,
Acredito que a este velho bobo você puxou.
E por isso, você nem imagina quanta alegria sinto,
E nem mesmo o quão orgulhoso eu sou.

É... Eu sei que nunca fui um pai perfeito
E nem lembro quantas vezes com você eu falhei;
Mas a despeito de todos estes meus defeitos,
E mesmo estando ausente, eu sempre te amei!

Hoje, que você cresceu e pensa como mãe,
Acredito que pode melhor me compreender...
Sabe que há circunstâncias que às vezes se impõem,
E que nem sempre depende do nosso querer.

A vida é formada de tropeços e aprendizados...
Tudo para a nossa evolução, é nisso que creio;
E se é para aprender que estamos todos fadados,
É por tais oportunidades que vivo e anseio.

Sou ciente que nunca concebi qualquer feito maior,
Nas minhas vidas antigas e nem nesta recente,
Mas do meu pouco, você é o que fiz de melhor:
É minha amada filha, minha única e preciosa semente.


Nardélio Luz
210219


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Amada Feiticeira




Amada Feiticeira


Ela nem de longe é um ser cruel,
Tampouco possui vara de condão;
É, pois sim, um pedacinho de Céu,
Que seduziu meu cético coração.

No início até que tentei resistir...
Ah! Decerto com empenho tentei!
Mas, então, optei por não insistir,
Já que desde o princípio a amei.

Nem todo feitiço é malfazejo...
Esse é um belo exemplo de amor:
Todo meu corpo arde em desejos,
E até minha alma é puro ardor.

Nenhuma história é só de flores,
Também tivemos nossos espinhos;
Apesar de termos nossos temores,
A magia os removeu do caminho.

Ela por vezes me beija no vento,
Na brisa que adota a madrugada;
Fêmea de pura magia e portentos,
É a mulher, é minha doce amada.


Nardélio Luz
160219

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Submerso




Submerso


O ápice do desespero tornou irrelevante a lembrança do que e por que estava ali. Imperava, não obstante, a certeza que o ambiente e as sensações eram reais demais para estarem no onírico. Portanto, estava ferrado!

Ao recobrar a consciência me dei conta que avançava inapelavelmente para o implacável desconhecido. Estava confuso, todavia cônscio de continuar torcendo com veemência para aqueles últimos minutos passarem rápido em vez de se desdobrarem pela eternidade, como pareciam estar fazendo.

Os cabos estavam partidos e não havia energia para fazer funcionar a nau condenada. A estrutura construída para ser inquebrável estava rompida e a pressão esmagadora aumentava conforme as toneladas de aço afundavam para a intrafegável escuridão abissal.

Ouvira ou lera em algum lugar que nos momentos finais víamos toda a vida passar rapidamente diante da gente. Provavelmente isso teria sido válido como distração, um bálsamo para minha mente descrente, mas comigo não acontecera. Talvez por eu não merecer tal clemência ou ainda porque não houvesse nada que valesse a pena ser revisto.

A capacidade de raciocinar diminuía na mesma proporção que o zumbido aumentava nos meus tímpanos. Com a compressão já prestes a implodir meu crânio, a dor dilacerante permitiu duas últimas sensações que levaram a uma breve resignação, pungente e odiosa ao mesmo tempo, porém estranhamente reconfortante: a certeza de estar perante o inevitável e que deveria aguentar firme já que em minutos tudo findaria.

A única decepção foi não apagar antes de sentir os ossos se partindo com estalos macabros, rasgando tecidos e penetrando órgãos enquanto todo meu corpo se contraía sob a terrível compressão, inundando os pulmões com meu próprio sangue e expulsando meus olhos para fora das órbitas, sem nada enxergar naquela escuridão ignota.

Mas deveras pior foi descobrir que — talvez para ficar uma cicatriz na alma como lembrança da nossa passagem por aqui — os receptores de dor mantêm-se funcionais até o último lampejo da consciência.

Nardélio F. Luz

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Boa Companhia

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Boa Companhia

Eu subi lá e observei o mar.
O caminho era íngreme e as pedras escorregadias...
Mas a voz ádvena no meu íntimo insistia:
— Esforce-se um pouco mais... Vai valer a pena!
E valeu. Realmente valeu.
Finalmente cheguei ao topo, onde cresciam ralos arbustos.
Num último esforço alcancei o ponto mais alto e me sentei.
As pernas agradeceram e os arfantes pulmões também.
As gaivotas saudaram minha chegada com estranheza.
Enxuguei o suor da testa com a manga salgada da camisa.
Observei a calma do mar e deixei escapar um suspiro.
Bem a tempo, pois não muito depois o sol se foi por trás do mar...
Lá longe. Lá... bem atrás do calmo mar.
Sua despedida foi um vermelho-amarelo-alaranjado jamais visto antes.
A presença dela era maior que a das gaivotas regateiras.
E naquele lusco-fusco, falamos do mar, do sol e da vida.
Para ser totalmente honesto, eu falei... só eu falei!
Sentada ao meu lado estava a saudade, ouvindo calada.
Em todos esses anos que tingiram de lua meus cabelos,
nunca conheci melhor ouvinte.

Nardélio Luz
031218


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Ela



Ela

Ela é como o vento que desenha nas nuvens,
Que acaricia o meu rosto nas tardes ardentes;
Sempre me conduz a desconhecidas paragens,
Sussurrando tempestuosos versos indecentes.

Ela é como poesia a acalentar meu espírito;
Está na melodia que acaricia meus ouvidos.
É a brisa que inebria com cheiro de saudade,
Perdição boa que desorienta meus sentidos.

Onipresente na inquietude da minha vida,
Está no remexer lúbrico da silhueta esguia;
No corpo quente que incendeia todo o meu,
É o prazer absoluto no vértice que extasia.

Ela existe na humildade que a todos cativa:
A deusa por quem me prostro em devoção.
É a candura que conforta a minha alma fria,
Divindade pela qual ribomba meu coração.

Ela é o cheiro da terra na chuva que chega,
É o amor que se mostra no primeiro olhar;
É o viço do relvado agradecendo o orvalho,
O alimento que não me permite definhar.

É vinho e lareira em frias noites invernais,
A notícia boa que chega em tempos ruins;
É o sol fulgurando nas manhãs cinzentas,
O inesperado reencontro de almas afins.

Nardélio F. Luz

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Ninguém Escolhe Ser Gay



Acabei de receber um vídeo no WhatsApp, no qual o mestre espírita Divaldo Franco responde o questionamento de um rapaz, repudiando veementemente o que ele mesmo se refere como “teoria de gêneros” e ainda usa o termo “aberrações”.

Eu sou hétero, mas tenho ótimos amigos gays, que aceitaram sua sexualidade e não apenas vivem suas vidas sem prejudicar ninguém como são extremamente respeitosos e generosos para com o próximo. E, no fundo, não são esses dois quesitos que importam?

No geral o vídeo é interessante, mas embora respeite muito Divaldo nas questões de espiritismo — mesmo porque ele é um mestre e eu apenas um ignorante —, não concordo com sua opinião que me pareceu preconceituosa na questão dos gêneros.

É realmente uma questão muito polêmica e com todo tipo de interpretações e “certezas” de que a própria opinião é a correta, mas nada fundamentado em provas concretas.

Portanto, deixo aqui apenas a minha opinião, sem querer afrontar ou causar dissabor com qualquer pessoa. Mesmo porque opinião é algo pessoal e não posso pedir que — ainda que não concorde — respeite a minha, se antes não respeitar a do outro.

Tenho amigos gays muito sérios, inteligentes e bem resolvidos e já tivemos longas conversas à respeito, por isso acredito que ser gay não é uma escolha.

Quem é gay de verdade já nasce gay, claro que isso não se manifesta na infância, pois como o próprio Divaldo diz no vídeo, embora em outras palavras, a criança ainda não tem a sexualidade aflorada. A sexualidade desperta na puberdade e é aí que a pessoa descobre a atração sexual pelo masculino ou feminino.

Não creio que a pessoa escolha ser gay; ninguém escolhe ser discriminado e sofrer com preconceito a vida inteira, e no geral é isso que ser gay significa a modo generalizado numa sociedade homofóbica e intolerante ao extremo como a nossa.

Eu sou sim, a favor da discrição e do respeito. Tanto quanto o hétero, o gay não precisa ficar gritando aos quatro ventos que o é, tampouco provar nada para o mundo (portanto acho essas paradas gay totalmente extravagantes e desnecessárias).

Reafirmo, portanto, baseado em testemunhos de amigos sérios e também de observações ao longo dos meus 51 anos de vida — totalmente aparte de religiões, por serem altamente tendenciosas — a minha crença que a pessoa gay não o é por escolha.

Ser gay não é uma doença, tampouco uma “pouca vergonha”, não torna uma pessoa melhor ou pior, nem antissocial ou desrespeitosa.

Quando necessário, a pessoa deve ser julgada pelo seu caráter e não pela sexualidade, pois desde que haja respeito e cada um — gay ou hétero — cuide de sua vida sem prejudicar o outro, para mim está tudo certo.

Da mesma forma que para se TER amigos antes precisa SER amigo, para se TER respeito antes é preciso respeitar.

Nardélio Luz