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sábado, 8 de abril de 2023

Imaginação


Imaginação
 
A imaginação é a melhor amiga do ser...
É rica além da riqueza, é fuga conivente;
É o que precisa quando se faz necessário,
Mescla o passado e o futuro ao presente.
 
O que seria dos artistas em geral sem ela?
A música seria somente notas dissonantes.
A cama seria apenas um leito de repouso...
É, portanto, a melhor amiga dos amantes.
 
Sem a imaginação, não haveria o poema.
Poesia sim, pois esta está em toda beleza;
Mas sem o poema, como escrever o amor,
E como enxergaria a poesia na natureza?
 
Ela liberta os seres humanos da mesmice,
Preenche mentes ávidas nas horas vazias...
Imprime nos criadores o poder da criação,
Transverte até a tristeza em belas poesias.
 
Ela nos permite viagens festivas e seguras,
Onde se tem o domínio do próprio coração;
A virtude governa e as criaturas são puras,
Um lugar onde as flores vencem o canhão.
 
A vida pode ser criada em outras esferas,
O conceito do inventor para sua invenção;
O poder de viajar sem sequer sair do lugar,
É a paixão necessária para toda criação.
 
Nardélio Luz
070423 


quinta-feira, 2 de março de 2023

Diálogo



Diálogo
 
Quando o vento soprou aos meus ouvidos:
— Vai passar! Como eu passo sussurrando, trazendo os perfumes,
levando o calor da tua pele e refrescando-te a alma.
— Mas, senhor vento, quando? — indaguei.
— Esta não é minha jurisdição! — sussurrou mais forte.
— Mas, senhor vento...
— Pergunte ao amigo tempo, que também passa, e, se for de interesse,
irá te elucidar.
E o vento seguiu seu caminho perpétuo, não sem deixar uma
refrescante calda de brisa. E o calor incômodo sessou quase de todo.
— Quando vai passar, senhor tempo? — inquiri com alguma urgência.
— Calma, pois não és único, tampouco mais importante... Na classificação
há seres com mais urgência, na hora que convier, será chegada essa a tua hora.
E o tempo — diligente, porém indiferente —, se arrastou de minutos a horas,
semanas, meses, anos...
A ansiedade... Ah, a vilã ansiedade, onipresente e onipotente, nem
sequer se dignou a responder.
 
Narfe
020323

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Imaginário


Imaginário
 
Lá, naquele habitat além do horizonte,
Na privacidade onde o Céu beija o mar,
Existem encantados vales, rios, montes,
E tudo que nossa mente pode imaginar.
 
O coração também vive animado por lá,
Às vezes acanhado pelas reles desilusões,
Porém troca a seriedade deste lado de cá,
Pelas belas aventuras e grandes paixões.
 
Afinal, se a vida é levada a sério demais,
Se torna pássaro triste que perde o canto,
E todas as coisas naturalmente magistrais,
Perdem também toda a graça e encanto.
 
Viver com leveza está em nosso fadário,
Tal como flutuar entre nuvens de algodão,
Pois onde reside nosso excelso imaginário,
O enfadonho não existe, lá tudo é paixão.
 
A fleuma e o fogo facilmente se misturam,
Até o paradoxo se faz deveras encantador,
É lá aonde todas as belezas se configuram,
E abraçando o contexto, persiste o amor.
 
Nardélio Luz
300123 


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Fantasma





Fantasma

 

Eu que sondo teu quarto enquanto dorme

E velo por teu sono profundo

Eu que ouço os suspiros de menina

E permeio teus sonhos mais secretos

Também seguro tua mão e toco teu coração

Durante os medonhos pesadelos

Eu que sopro teu pescoço nas noites quentes

Incutindo aquele arrepio prazeroso

Que te faz arquear as sobrancelhas

Ciente da ausência de brisa

Eu que provoco teu sorriso largo

Na infinitude das lembranças

É meu abraço etéreo que conforta

E aplaca o frio da tua pele

Sou aquela sensação reconfortante de presença

Quando você não vê ninguém

Sou o pecado que não se consuma

Tanto quanto o que não pode ser pecado

Pairo sobre ti a noite em contemplação

Em proteção e desvelo

E a aviso dos perigos da vida diurna

Eu que advogo contra o mal em tua defesa

Eu sou esse sentimento que não compreendes

E ainda assim teme perder

Sou essa falta que sente

Esse vazio que não preenche

Sou o pouco que você teme

E o muito que não resiste

Sou o respeito de te ver sem tocar

De tocar se consentir, se pedir

Sou o fogo incompreensível

Que te faz arder de prazer

Que te queima sem doer

Que te invade sem machucar

Sou a ternura que te envolve

Sou o que tu esperas de mim

Sem nem mesmo perceber.

 

Nardélio Luz

020514


 

domingo, 14 de novembro de 2021

Entropia



Entropia

 

Quero mais é surfar no mundo como ele está,

Sem me preocupar com teorias de conspiração,

Sem neuras do que faz bem ou mal ao coração,

De preferência sem me preocupar em afundar.

 

Mas tantas coisas ruins deixam a gente doente.

A um brucutu genocida foi dado o grande poder,

Com nossa ávida nação lutando para sobreviver,

Por mais que se tente, é utópico ser indiferente.

 

Somos só gado sendo conduzidos ao matadouro

Por uma casta de poucos boiadeiros dominantes.

Somos maioria ignorante, e os poucos pensantes,

Não influenciam na espera dos anos vindouros.

 

Deus, certamente sente vergonha dos humanos;

Único animal agraciado com o dom de ponderar,

Mata o filho, o irmão, e destrói o próprio habitat,

Se encerrando no ciclo de seu próprio ego insano.

 

Quem dera um dia surgissem em paz os tais ET’s;

Viessem de um lugar onde predominasse o amor,

Nos dessem aulas de como erradicar toda a dor,

E nos ensinassem como verdadeiramente viver.

 

E aqui jaz a fria entropia: a única considerável.

Na fuga devo transitar entre realidade e ficção;

Iniciei expondo que queria surfar numa ilusão,

Mas, de fato, não consigo ser tão irresponsável

 

Nardélio Luz

111121


 

sábado, 30 de outubro de 2021

Medo



Medo

 

Entre as árvores mudas da floresta enevoada, tudo parece

Morto. Até mesmo os seres da noite ― que nessas horas tardias

Normalmente manifestam com sons fiéis suas frustrações ―

Se furtam estranhamente de tais instintos ou vontades.

 

Somente meu coração pode ser ouvido na noite anômala

(E muito alto por sinal!), numa tentativa vã de ser expelido pela

Minha escancarada boca arfante. O frio pegajoso penetra meus

Ossos e o pavor indizível que me abraça é algo indominável.

 

Mal posso crer que ainda consigo raciocinar com coerência

Suficiente para tornar infimamente inteligível essas palavras

― Que ora expresso em desvario e noutra me calo ―, com o

Medo de ser localizado sobrepujando todos os outros.

 

Porém, medo de quê? Sim, pois de quem não pode ser!

A exaustão desabilita o resto das minhas forças, enquanto

Sinto os invisíveis arbustos espinhentos rasgarem ainda mais

Minhas vestes e minha carne, já em frangalhos e sangue.

 

Por fim a profusão de gritos, silvos e agouros alcançam

Meus tímpanos de uma vez, como o estrondo de um trovão.

Meus joelhos finalmente tocam o solo e me entrego ao abraço

Gélido e pegajoso. Incônscio, rezo pela balsâmica loucura.

 

Porém, em vez do alívio da insanidade, domina o pavor

Das coisas ― mortas ou vivas ― que me cingem. E tal aflição

Leva a intuir como o sol ― filtrado pelas árvores ancestrais ―

Encontrará meu cadáver na manhã que muito ainda tarda.

 

Nardélio Luz

301021


 

domingo, 26 de setembro de 2021

A Música



A Música

 

Encontre-se na música. Localize-se

Naquele lugar inusitado, na hora exata,

Com aquela pessoa tão deveras especial,

Que, por mais que tenha tentado antes,

Nenhuma vez fora capaz de esquecer.

 

Abra os braços, simule o longo abraço...

Ausente-se desse insistente salão deserto,

Ignore a penumbra rubra do grande espelho.

Sinta a leveza dos acordes te conduzindo

Àquele único e magnífico momento.

 

Coincidentemente a melodia, hoje triste,

Conjecturava longas noites sem mais boleros,

Como um prenúncio do que estaria por vir.

E terá que dançar sozinha, ainda que doa,

Tal como doeu naquela noite desdita.

 

Dance, expurgue tudo que está aí dentro,

Mais do que vem fazendo todos esses anos;

Vomite para fora todo esse fel de amargura.

As lembranças doem, e também consolam,

Levando-te de volta àquele último beijo.

 

Baile, baile bem mais que naquela noite!

Esqueça por um instante que está sozinha...

Viaje na eternidade das notas e frases doces.

Só por agora o bolero voltou, esqueça a dor,

Permita que a melodia te guie no tempo.

 

Nardélio Luz

290921

 


 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Mistérios e Vontades



Mistérios e Vontades

 

Já desvendei alguns dos seus mistérios,

Mas fiquei longe de me dar por saciado;

Permaneceu uma insubjugável sensação,

De algo mais que não fora consumado.

 

Você é a recusa que intenta dizer sim,

Em entrelinhas que desafiam o intelecto,

Que só podem ser captadas pelo coração

E seus planos politicamente incorretos.

 

A timidez não a deixa se entregar fácil,

Fato esse que só a torna mais desejada;

É o doce prêmio que faz valer a espera,

Incentivando essa vontade exacerbada.

 

É o fruto proibido que tenta e atenta,

Que de tão doce, me deixa embriagado;

A lembrança de tudo que traz saudades,

Inclusive o mais perdoável dos pecados.

 

Dos seus mistérios, um não desvendei,

E esse mantém acesa a minha vontade;

Pois foi o que iniciamos naquela noite,

Que me fez prisioneiro desta saudade.

 


Nardélio Luz

151020


 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Devaneios



Devaneios

 

Se nossos corpos fossem

ponteiros de um relógio,

marcávamos quinze para as três,

deitados sobre o estrado rústico

naquela madrugada tempestuosa.

 

E enquanto os raios rasgavam

a escuridão encharcada,

seguidos de trovões ensurdecedores,

permanecíamos alheios ao frio

resultante do prélio dos elementos.

 

Olhos nos olhos, sorriso bobo,

boca quase na boca...

Eu quase podia sentir seu hálito delicioso;

quase podia ler antecipadamente

o que estava para me dizer.

 

E meu coração — mais ribombante que os trovões —

permitia à minha imaginação viajar

a recônditos paradisíacos de Terras paralelas,

para um futuro (possível?)

de afetos e prazeres inimagináveis.

 

Nardélio Luz

180520


 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Trevas



Trevas

 

Parece que o peito quer explodir!

E a impressão que se acomete é que

verterão trevas por todos os poros,

contagiando tudo e todos ao redor,

como uma pestilência inevitável.

 

Faz-se uma sensação angustiante,

um opressivo sentimento de prisão

espelhado na maldita impotência

perante o que precisa ser feito,

sem o mínimo ensejo de fazê-lo.

 

Sobretudo porquanto há também

um sofrimento maior, que não é meu,

trazido em parte pela minha presença;

da qual a solução definitiva transcende,

em muito, minha ínfima coragem.

 

É duro quando se enxerga a solução

e não tem o poder para ser parte dela!

É duro quando as chances se fecham

tais quais pesadas cortinas escuras e,

com elas, se vai qualquer esperança!

 

As trevas se abraçam à angústia

e a outros indizíveis sentimentos nocivos,

formando pares na balada de navalhas,

as quais, com muita dificuldade contidas,

cortam por dentro na ânsia de saírem.

 

Quem quer não pode fazer

e quem pode sequer se dá conta.

Assim se perpetua a vil impotência

em uma jornada longa e desesperançada

cuja meia solução é tenebrosa demais.

 

Nardélio Luz

140820

 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Boa Companhia

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Boa Companhia

Eu subi lá e observei o mar.
O caminho era íngreme e as pedras escorregadias...
Mas a voz ádvena no meu íntimo insistia:
— Esforce-se um pouco mais... Vai valer a pena!
E valeu. Realmente valeu.
Finalmente cheguei ao topo, onde cresciam ralos arbustos.
Num último esforço alcancei o ponto mais alto e me sentei.
As pernas agradeceram e os arfantes pulmões também.
As gaivotas saudaram minha chegada com estranheza.
Enxuguei o suor da testa com a manga salgada da camisa.
Observei a calma do mar e deixei escapar um suspiro.
Bem a tempo, pois não muito depois o sol se foi por trás do mar...
Lá longe. Lá... bem atrás do calmo mar.
Sua despedida foi um vermelho-amarelo-alaranjado jamais visto antes.
A presença dela era maior que a das gaivotas regateiras.
E naquele lusco-fusco, falamos do mar, do sol e da vida.
Para ser totalmente honesto, eu falei... só eu falei!
Sentada ao meu lado estava a saudade, ouvindo calada.
Em todos esses anos que tingiram de lua meus cabelos,
nunca conheci melhor ouvinte.

Nardélio Luz
031218