sexta-feira, 12 de maio de 2017

Acredite




Acredite

Acredite!...
Qualquer hora dessas
As coisas vão acontecer.
Não na tua hora,
Pois embora teu querer seja relevante,
Teu tempo não é...
Teu tempo precisa ser trabalhado
Até que não sobre qualquer resquício
De falsa onipotência
E a humildade galgue um patamar.
Teu querer precisa se encaixar
No tempo e espaço do universo
Para que seja mantido o equilíbrio
Ainda que, com isso,
Possa parecer pertencer
À condição de acaso.
Teus desejos se realizarão,
Mas não no teu tempo...
No tempo de Algo Maior,
Invisível aos olhos,
Mas presente no coração,
Cuja sapiência O faz,
Por conseguinte,
Onisciente.

Nardélio Luz

domingo, 30 de abril de 2017

Caçada




Caçada


A noite calma tenta me acalmar,
Enquanto as horas me devoram.
Já faz tempo que peguei o rastro,
Que se move mais como arrasto.

A bestialidade inominável deixa
Sulcos rubros na lama insalubre.
E os odores malditos do pântano
Bagunçam feio os meus sentidos.

Não creio nessa droga de inferno,
Porém, em seus últimos delírios,
O ancião moribundo mencionou
Algo sobre uma lenda ancestral.

Fala de uma cidadela submersa
Onde hiberna uma antiga besta
À espera do exato alinhamento
De ignoradas estrelas lúgubres.

Ao que parece o diabo acordou,
Mas me topou em seu caminho.
“E eu sou o melhor no que faço,
Ainda que não seja agradável.”

A gosma seca nas minhas garras
E a acidez corrói o adamantium.
O fator de cura do ser tentacular
Deixa o meu abaixo do chinelo.

Não devia fumar numa caçada,
Mas ao diabo com essas regras!
O charuto me mantém na linha,
Lembrando meu lado humano.

Os pelos da minha nuca eriçam
E meu faro capta o fedor ácido.
A besta se arrasta para o mar...
Saciada com sangue humano.

“Eu falhei feio contigo, Xará!”,
Rosno para o confiante Xavier.
A água não é meu ambiente e
Cthulhu retorna vivo a R’lyeh.


Nardélio Luz
300417

sábado, 22 de abril de 2017

Descrença



Descrença


Somos prólogos de histórias
Infelizes que construímos;
Que talvez nem nossas são,
Ou se são, não assumimos.

Parte de nação despencada
Sob os tapetes escondidos,
Os nossos próprios pecados
Jamais sequer assumidos.

Perdoáveis quando seus,
Hediondos quando não;
Pândegas feitas de breu,
Crias rastejando em vão.

Pecados pequenos que
Atenta e nunca assume,
Numa mescla de ilusão
Boa de seguir impune.

Pobres símios pelados,
De astúcia despojados,
Com cérebros graúdos
Pseudo bem-dotados.

Infeliz gado indecente
Que se faz tão ingente,
Porém tal como gente,
Nem sequer o sente.

E domado por inteiro
Mal sente a pontada
Quando o boiadeiro,
Cruel, o faz boiada.


Nardélio Luz
220417

terça-feira, 28 de março de 2017

Hi-Fi





Hi-Fi

Todos os dias, pontualmente as sete, dona Silvia e dona Vilma — vizinhas há décadas — saem de suas casas com vassouras em punho e grande empolgação para discutirem os capítulos das novelas, exibidos na noite anterior.
A essa altura ambas já serviram o café e despacharam os maridos para o trabalho e os filhos para a escola, estando livres para o ritual diário de varrer as folhas das Sibipirunas da praça em frente, que na primavera tecem um belíssimo tapete amarelo sobre o gramado e as calçadas.
Mas naquela manhã dona Vilma se atrasou alguns minutos e, quando saiu, encontrou dona Silvia “nos cascos”.
— O que houve, mulher? — a recém-chegada indagou cautelosa.
— Foi o descarado do vizinho que me faltou com respeito! — dona Silvia respondeu naquela irritadiça voz aguda. — Só não chamei a polícia para evitar fofocas e...
— Mas, qual vizinho?
— Walter Pilico, o viúvo grisalho de Araxá, 66 anos, comerciante, cuja esposa morreu de câncer, pai de uma filha e dois filhos, dois netos, que se mudou sozinho para a casa à esquerda da minha anteontem...
— O que aconteceu de tão grave, Criatura? — tornou a indagar dona Vilma, já aliviada da preocupação por conhecer bem a amiga.
— Imagina que enquanto eu a esperava, ele saiu para pegar o jornal. Usava apenas bermudas e camiseta regatas que lhe ressaltava a musculatura e...
— Sim, mas e daí? — a recém-chegada já perdia a paciência.
— E daí que — a irritação de Silvia crescia — gentilmente ofereci uma xícara de café fresquinho e ele não aceitou.
— Mas que mal há nisso?...
— “Devido à gastrite não posso aceitar o cafezinho, mas agradeço e aceito sua senha do Wi-Fi.” — Foram essas as palavras exatas do safado!
— E o que vem a ser Wi-Fi, Silvia?
— Não faço ideia, mas só pode ser alguma sem-vergonhice!

Nardélio Luz

segunda-feira, 13 de março de 2017

Rebeldia



Rebeldia

Eu não me lembro do lado de lá,
Mas não me impede de acreditar,
É questão de amar este lado de cá,
Pois melhor que esta vida não há.

Um dia, quando desta me cansar,
E minha validade aqui se expirar,
Pode ser que venha a desanimar,
Mas uma fagulha permanecerá.

E quando a morte vier me buscar,
Será decepcionante, posso apostar,
Pois decerto não haverá de gostar,
Do que neste ser ela encontrará.

Já que por certo irá testemunhar,
Um eu resoluto, disposto a lutar,
Para esta hílare vida prolongar,
E seu trabalho macabro adiar.

Certamente alguém irá decretar,
E logo do além chegará o alvará,
Mas a mim não será fácil levar,
Pois jamais irei me entregar.

Nardélio Luz
040317

sexta-feira, 3 de março de 2017

Desatinos



Desatinos


No aprazo da tua presença, eis que vivo;
Como a criança guiada pela ingenuidade.
Sigo reto, sem qualquer revés ou esquivo:
Pulcra encarnação da própria felicidade.

No suplício de não tê-la, eis que morro;
É uma doença que aos poucos se espalha.
Esvaído, tenho como opções de socorro:
A lenta ausência ou o gume da navalha.

Dê-me o bálsamo que anseia este peito;
Aplaque os prantos deste velho coração;
Olvide a atmosfera que incute este leito;
Explane a voz que alforria nossa canção.

Desta ossada que geme de fome e sede,
Rebenta o clamor que segreda e zomba:
Diz que é apenas um retrato na parede,
E como tal, a consciência me assombra.

Desfaça de vez tua mortalha nevoenta!
Abone aclaração: esta alma vos suplica!
Descarte o vil que a concebe e ostenta,
Nesses moldes que a ciência não aplica.

Beije-me com doce placebo da loucura,
Seguindo por me deixar à própria sorte.
Pois que a febre que arde não tem cura,
É irrelevante testificar a minha morte.


Nardélio F. luz
270217-03:19