sexta-feira, 12 de agosto de 2016
domingo, 17 de julho de 2016
Fuga
Fuga
É para lá das coisas que respiram
Que fica o reino ignoto de onde venho.
É um lugar que ninguém daqui conhece,
Pois quem lá esteve, por certo não voltou.
Lá, a noite se alarga além das horas tardias
E a lua furta a superfície da própria corrida,
Impondo o lampejo de estrelas estranhas,
Numa sinistra configuração alienígena.
Os líquens não escolhem lado para crescer,
Apenas abraçam o tronco podre como salvador,
Ainda que as negras águas oleosas do rio abaixo
Neguem a vida, à colônia ou ao débil suporte.
Seres pequenos e arredios, privados de almas,
Com formas indizíveis e texturas repelentes,
Se arrastam sobre os pântanos infestados,
Sorrateiros, caçando e sendo predados.
Entre cá e lá há um vácuo monstruoso
Arrebatando o sono de qualquer pensante;
Um precipício disforme de escuridão silente
Que engole a quem ouse encarar tal loucura.
Alertei-vos, senhores, pois que não intuiriam
A minha predileção por estas vis correntes...
Mil vezes a constrição eterna das grilhetas
Do que a agonia de lá ter que retornar!
Nardélio F. Luz
domingo, 3 de julho de 2016
Biluxa
terça-feira, 3 de maio de 2016
Alhures
Alhures
Bem longe, naqueles tempos idos há muito,
Perdidos nas vertentes das eras e da memória,
Aonde a brisa acariciava delicadamente as flores
Dos aromais jardins explanados nas campinas,
Era tu uma delas: era, pois sim, a mais bela.
Por grande mérito a bênção fresca a envolvia,
Tal qual perpetra com esmero, ainda por estes dias;
Pois que, com o brio dos que possuem alma e coração,
Abdicaste do vigor do caule para te tornares humana,
Unicamente para amar e auxiliar aos teus caros.
Que te sejas ofertado, então, o respeito dos seres
E as estimas dos que ainda estão e dos que partiram,
Pois é certo que esses cantem e rejubilem ao tocar-te,
Tal como fizeram os elementos nas tuas alvas pétalas,
No experimento de render-te homenagens à altura.
Que Boas Novas persistam cavalgando os ventos
Entre canyon’s, sobre o mar e através dos bosques...
Que jamais percam o sublime propósito de abraçar-te,
Com tal afeto que aplaca as dores e dissipa mágoas,
Qual a natureza divina de um abraço de Deus.
A mim, contudo, que remei com displicência,
À espera de ser engolido pelo faminto horizonte,
É obvio que não houve porto, norte ou lembrança,
Mas a desolação cinzenta da minha alma errante,
E o escárnio das gargalhadas às minhas costas.
Agora, Flor, que os anos foram e o vigor se esvai,
Receberás os lauréis de uma existência de virtudes,
Mas a este ser vil que zombou de todos os presentes,
O último será a noção do perdão que não praticou
E o abraço conivente da saudade angustiante.
Nardélio F. Luz
terça-feira, 19 de abril de 2016
Seguindo em Frente
Seguindo em Frente
Sim, já fui deveras confiante,
Por uma doce e bela indulgente,
Fui alicerçado num grande amor.
Mas também fui tolo, arrogante,
Ao tornar-me um vilão descrente,
Ignorando sinais de um dissabor.
Então acordei naquele instante,
Em que o vazio é único presente,
E fui destroçado por grande dor.
Dali, nada mais foi como antes,
A grande vontade ficou doente,
E de fato nada mais prosperou.
Desde então me tornei distante,
Só restando rastejar em frente,
Já que tão belo sonho acabou.
Nardélio Luz
19/04/16
domingo, 27 de março de 2016
Resignação
Resignação
Ah, passado... portentoso passado!
Esse mocinho, que às vezes é vilão,
Quase sempre nos inquieta o coração
E o deixa assoberbado.
Que tem como amante a saudade.
Essa que quase sempre causa dor,
Mas que como toda dor de amor,
Quanto mais dói, mais dá vontade.
História e alicerce do homem.
Que mesmo deturpado no presente,
Explica lá atrás o que ele sente,
Ainda que seja agonia que o consome.
Tentemos, então, o que nos resta merecer,
Pois se o futuro por ora é incerto
E o verde passado hoje é deserto,
Salve o presente,
Que é o que temos pra viver.
Nardélio F. Luz
domingo, 13 de março de 2016
Êxtase
Êxtase
A cadência toma novas proporções
E gotículas desabrocham nos poros
Da compleição em plena celeridade.
Os pelos reagem ao fluxo dos beijos
E sob a meia luz, dual se torna uno.
Teu gemido alto, ainda que contido,
Assemelha-se ao uivo de uma loba,
Balançando a ordem da minh’alma,
Momentaneamente desestruturada
Pela voz das chamas no meu corpo.
À vista disso, solto-me igualmente,
E alforriado como jamais fui antes,
Sinto a eletricidade no nosso suor
E uma torrente de delírio explode,
Guiando-nos ao âmago do Éden.
Após o júbilo, a doce languidez,
A sensação de estar no paraíso,
Olhos nos olhos, doce entrega,
Lábios nos lábios, sorriso bobo,
E almas-gêmeas se acariciando.
Nardélio F. Luz
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