domingo, 24 de janeiro de 2021

Rosa Branca



Rosa Branca

 

Nas madrugadas frias de solidão,

A minha alma tem buscado a tua;

Geralmente eu bato no teu portão,

E fico a observar as luzes da rua.

 

A chuva despenca de mansinho,

E permaneço mudo, à sua espera,

Então que ouço bem devagarinho,

O conhecido ranger da tua janela.

 

Estou ciente que prefere o calor,

Mas mesmo assim, a janela abriu,

Em testemunho de que esse amor,

Ofusca até mesmo o próprio frio.

 

Belíssima, apoiou-te no peitoril,

A alvura realçada pela luz da rua;

Antepus meu sorriso mais gentil,

Para ovar tua silhueta seminua.

 

Ao teu convite adentro o jardim,

De imediato esqueço tudo lá fora;

Desliza ao chão tua seda carmim,

E somos flagrados pela aurora.

 

O sol beija o meu rosto de leve,

E encontro-me de novo sozinho;

Mas outra noite cairá em breve,

E de novo será meu teu carinho.

 

Nardélio Luz

180121


 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Intuição



Intuição

 

Durante o dia é banal disfarçar,

Contudo, quando retorna a noite,

É que despertam para machucar,

As vontades na forma de açoite.

 

Se a ti facultasse também sentir,

Tão forte quanto minha saudade,

Correria sem demora para mim,

E provaria da minha fidelidade.

 

Mas são laivos de outro tempo,

Só a forte noção que me invade,

Muito aquém do que me lembro,

Meios que vêm de outra idade.

 

Não é simples de se conceber,

E pode até achar que sou louco;

Eu mesmo não posso entender,

Ou sequer explicar, tampouco.

 

Mas peço que confie em mim,

E neste meu sentimento voraz,

Pois que esta vontade sem fim,

Somente o teu amor satisfaz.

 

Nardélio Luz

160121


 

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Quanto Eu Gosto de Você

  

O Quanto Eu Gosto de Você?

 

Pense em tudo de belo que já viu

e em tudo de bom que já sentiu...

Pense na calmaria do anoitecer

e no despertar do amanhecer...

Pense na constância das marés

e nas ondas beijando seus pés...

No que conhece e desconhece

e naquilo que jamais esquece...

Pense em tudo que mais gosta,

transforme em sentimentos

e terá sua resposta.

 

Nardélio F. Luz

150121


 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Aos Meus Irmãos



Aos Meus Irmãos

 

Foi uma criação dura, mas cheia de alegrias,

Em harmonia com tudo e com todos ao redor;

Mesmo longe, tínhamos bênçãos do nosso pai,

E nossa mãe presente, sempre fez seu melhor.

 

Na simplicidade vivemos de maneira íntegra:

Somos, os filhos, duas mulheres e dois varões;

Temos um pouco do nosso pai e da nossa mãe,

Mas por ora eu quero falar dos meus irmãos.

 

Nos tempos idos parecia não haver critérios

Para sobrenomes e outros mais que por aí vai;

Mas embora elas não tenham nas assinaturas,

Possuem a força da mãe e a Luz do nosso pai.

 

Como dedos das mãos, também não são iguais,

E cada qual tem suas peculiares características;

Mas antes assim, com suas virtudes e defeitos,

Do que se fossem apenas cópias futurísticas.

 

A mais de 20 anos vivo uma Vida Após a Vida,

Dependendo de todos, inclusive meus irmãos;

Cada um com sua personalidade, a seu modo,

Se sacrificam para não me deixarem na mão.

 

A minha fé, bem sei, nem sempre é profusa,

Mas procuro me reiterar à Deus em orações;

E ainda que eu pouco fale de minha gratidão,

Sou grato demais a vocês, amados irmãos!

 

Nardélio Luz

101220


 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Amor Sereno



Amor Sereno

 

Eu queria poder voltar no tempo,

Para o período que nós começamos;

Quando estávamos tão enamorados

E inebriantes carícias partilhamos.

 

Nosso cantinho quase nada tinha,

Na alcova, apenas poucas almofadas;

Todavia, para nossas noites de amor,

Aquilo era mais do que nos bastava.

 

Quando hoje contou-me o sonho,

No qual até fora tomada por ciúme,

Tal e como em um passe de mágica,

Pude sentir de novo o teu perfume.

 

Nosso tempo se foi, disso eu sei...

E a distância sufocou nossa paixão;

O que fora fogo, é um sereno amor,

Que bravamente resistiu à solidão.

 

Tamanho sentimento foi purgado,

E embora ao físico possa causar dor,

Eis que suplantará a própria morte,

Como o faz todo verdadeiro amor.

 

Nardélio Luz

051220


 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Decrepitude



Decrepitude

 

Ela dança como o vento, em suaves torvelinhos.

O rodopio da silhueta esguia dentro da veste leve

A realça entre os desfalecidos raios do sol poente

Que penetram as imensas janelas envidraçadas.

 

Nas cortinas em v de uma ventana semiaberta,

Posso divisar a brisa adentrando o amplo recinto,

Trazendo em si os suaves aromas de rosas e lírios.

Há muitos perfumes e cores no ar de setembro!

 

Recostado na carcomida poltrona de camurça,

Fecho os olhos na intenção de admirar o jardim

Que ela cultivara em seus tempos de esplendor,

Antes da ciência que esses lhe seriam furtados.

 

Uma vez mais é preciso cerrar os olhos fundos,

Para escorraçar as lágrimas furtivas e teimosas

Que, à minha revelia, pirraçam em embaçá-los.

Nem o lamento acata a vontade de um velho!

 

Embora contemple longos períodos de lucidez,

Já não tenho confiança nas minhas faculdades;

Somente os livros e uma severa formação cristã

Me fazem persistir nesta condição de semivivo.

 

Sem qualquer destreza me levanto do assento

E manquitolo até uma das janelas semiabertas.

Já há tempos não tenho criados para fechá-las,

Tampouco para cuidar da minha decrepitude.

 

A noite caiu e aperto os olhos para enxergar

Os arbustos escuros que um dia foram jardim;

O vestido leve se tornara uma negra mortalha

E da escuridão lá fora ela chama por mim.

 

As flamas das velas bruxuleiam no castiçal

E a bengala soa espectral ao tocar o assoalho.

Não existem cores nem alegrias na alcova fria,

Apenas os odores nauseosos de bolor e morte.

 

Novo acesso de tosse sacode minha carcaça,

Um pouco mais violento que seus antecessores.

As sombras se esgueiram acima do leito vazio

E uma vez mais me deito esperando por ela.

 

Nardélio Luz

110920


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Renúncia



Renúncia

 

Há uma certa melancolia no contexto,

Refletida na história, nos velhos anais,

Traduzida em saudade do que já se foi

E por mais que deseja, não será mais.

 

Nova manhã, gloriosa como as outras,

Do belvedere ela observa o horizonte:

À esquerda o céu beija o mar ao longe

E a direita abraça o cinza dos montes.

 

As flores embelezam seu observatório,

Enchendo os olhos quão o céu distante;

O vento suave traz o coro dos pássaros,

Tal qual a nostalgia atrai o navegante.

 

Os lábios cerrados não precisam dizer,

Que do coração vem a lágrima vertida;

Porque sua alma aufere compreender,

Que tanta saudade não é dessa vida.

 

Nardélio Luz

201120