sábado, 22 de abril de 2017

Descrença



Descrença


Somos prólogos de histórias
Infelizes que construímos;
Que talvez nem nossas são,
Ou se são, não assumimos.

Parte de nação despencada
Sob os tapetes escondidos,
Os nossos próprios pecados
Jamais sequer assumidos.

Perdoáveis quando seus,
Hediondos quando não;
Pândegas feitas de breu,
Crias rastejando em vão.

Pecados pequenos que
Atenta e nunca assume,
Numa mescla de ilusão
Boa de seguir impune.

Pobres símios pelados,
De astúcia despojados,
Com cérebros graúdos
Pseudo bem-dotados.

Infeliz gado indecente
Que se faz tão ingente,
Porém tal como gente,
Nem sequer o sente.

E domado por inteiro
Mal sente a pontada
Quando o boiadeiro,
Cruel, o faz boiada.


Nardélio Luz
220417

terça-feira, 28 de março de 2017

Hi-Fi





Hi-Fi

Todos os dias, pontualmente as sete, dona Silvia e dona Vilma — vizinhas há décadas — saem de suas casas com vassouras em punho e grande empolgação para discutirem os capítulos das novelas, exibidos na noite anterior.
A essa altura ambas já serviram o café e despacharam os maridos para o trabalho e os filhos para a escola, estando livres para o ritual diário de varrer as folhas das Sibipirunas da praça em frente, que na primavera tecem um belíssimo tapete amarelo sobre o gramado e as calçadas.
Mas naquela manhã dona Vilma se atrasou alguns minutos e, quando saiu, encontrou dona Silvia “nos cascos”.
— O que houve, mulher? — a recém-chegada indagou cautelosa.
— Foi o descarado do vizinho que me faltou com respeito! — dona Silvia respondeu naquela irritadiça voz aguda. — Só não chamei a polícia para evitar fofocas e...
— Mas, qual vizinho?
— Walter Pilico, o viúvo grisalho de Araxá, 66 anos, comerciante, cuja esposa morreu de câncer, pai de uma filha e dois filhos, dois netos, que se mudou sozinho para a casa à esquerda da minha anteontem...
— O que aconteceu de tão grave, Criatura? — tornou a indagar dona Vilma, já aliviada da preocupação por conhecer bem a amiga.
— Imagina que enquanto eu a esperava, ele saiu para pegar o jornal. Usava apenas bermudas e camiseta regatas que lhe ressaltava a musculatura e...
— Sim, mas e daí? — a recém-chegada já perdia a paciência.
— E daí que — a irritação de Silvia crescia — gentilmente ofereci uma xícara de café fresquinho e ele não aceitou.
— Mas que mal há nisso?...
— “Devido à gastrite não posso aceitar o cafezinho, mas agradeço e aceito sua senha do Wi-Fi.” — Foram essas as palavras exatas do safado!
— E o que vem a ser Wi-Fi, Silvia?
— Não faço ideia, mas só pode ser alguma sem-vergonhice!

Nardélio Luz

segunda-feira, 13 de março de 2017

Rebeldia



Rebeldia

Eu não me lembro do lado de lá,
Mas não me impede de acreditar,
É questão de amar este lado de cá,
Pois melhor que esta vida não há.

Um dia, quando desta me cansar,
E minha validade aqui se expirar,
Pode ser que venha a desanimar,
Mas uma fagulha permanecerá.

E quando a morte vier me buscar,
Será decepcionante, posso apostar,
Pois decerto não haverá de gostar,
Do que neste ser ela encontrará.

Já que por certo irá testemunhar,
Um eu resoluto, disposto a lutar,
Para esta hílare vida prolongar,
E seu trabalho macabro adiar.

Certamente alguém irá decretar,
E logo do além chegará o alvará,
Mas a mim não será fácil levar,
Pois jamais irei me entregar.

Nardélio Luz
040317

sexta-feira, 3 de março de 2017

Desatinos



Desatinos


No aprazo da tua presença, eis que vivo;
Como a criança guiada pela ingenuidade.
Sigo reto, sem qualquer revés ou esquivo:
Pulcra encarnação da própria felicidade.

No suplício de não tê-la, eis que morro;
É uma doença que aos poucos se espalha.
Esvaído, tenho como opções de socorro:
A lenta ausência ou o gume da navalha.

Dê-me o bálsamo que anseia este peito;
Aplaque os prantos deste velho coração;
Olvide a atmosfera que incute este leito;
Explane a voz que alforria nossa canção.

Desta ossada que geme de fome e sede,
Rebenta o clamor que segreda e zomba:
Diz que é apenas um retrato na parede,
E como tal, a consciência me assombra.

Desfaça de vez tua mortalha nevoenta!
Abone aclaração: esta alma vos suplica!
Descarte o vil que a concebe e ostenta,
Nesses moldes que a ciência não aplica.

Beije-me com doce placebo da loucura,
Seguindo por me deixar à própria sorte.
Pois que a febre que arde não tem cura,
É irrelevante testificar a minha morte.


Nardélio F. luz
270217-03:19

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Julgamento



Julgamento


Cavalheiros bem nascidos,
Que observam, ouvem, opinam
E estão aí ferrenhos a me julgar.
Saibam, jamais implorarei perdão,
Portanto, cumpram teus esforços.

Se a pena é a máxima, capital,
Que então condenem e efetuem,
De modo algum anseio esquivar.
Que minha idolatrada o execute,
Sem preâmbulo ou remorsos.

Fosse eu um cristão bem criado
E obedecesse leis que não as minhas,
Rogaria só a ela, meu amor, perdoar
Aquela minha sorrateira invasão,
Na mais umbrosa das noites.

A paixão me rasgava o peito
E o desejo se fez mais vigoroso,
Obrigando-me ao ensejo desprezar.
E por tamanha irracional “razão”,
Que venha antes da morte o açoite!

Aproveitei o escancaro da janela,
Que conduzia a fresca brisa noturna,
Para em teu pulcro quarto enveredar.
Senti-me grato ao calor da estação,
Pelo que a pele seminua exalava.

Ali na confortável cama estendida,
Belíssima, deliciosamente adormecida,
No ávido esfalfamento de me esperar.
E agraciado pela sublime e terna visão,
Não havia volta e meu fôlego parava.

Uma mecha dos sedosos fios de ouro
Adornava lindamente a doce e linda face,
Explanando sonhos e jardins a desbravar.
Tocara irreversivelmente meu coração,
Que, embevecido, perdeu a coerência.

Embriagado pelas esguias curvas ―
Pele sob tecido, seda sob seda ―, o ardor
Varreu o plano da nobre idolatria sem tocar.
Com amor, fizemos amor com devoção,
E, correspondido, rescindi a inocência.

Ora estou neste execrável julgamento,
Inquirido por seres pobres de sentimentos,
Por tão bem querer, por muito me encantar.
A hipocrisia decreta sumária condenação,
Mas regozijo por não vir de ti, ó divina.

Que eu seja aqui e agora castigado,
E se amar é pecado, no inferno padecerei...
Nada importa, pois no gozo jurou me amar.
Aproxima-te ó idolatrada de minh’alma,
Peço que aciones tu, a vil guilhotina.


Nardélio F. Luz

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Menina-Flor



Menina-Flor


Menininha de alma pura,
Coração grande e generoso,
Espírito elevado à altura,
Sorriso claro e luminoso...

Encontro-me aqui cedinho,
Em companhia de divindades;
Sob o coro lírico de passarinhos,
Mirando trazer-te felicidades.

O saltitante Pan saúda teu dia,
Em dupla com a Fada das Flores;
Com tua flauta esparrama alegrias,
E a varinha da amada: amores.

Reluzentes pingos de orvalho,
São diáfanos brincos de diamantes,
Que enriquecem o bucólico cenário,
De vários tons verdes brilhantes.

Lírio do campo, doce menina,
De gestos nobres e toques gentis,
És possuidora de aura cristalina
E cheiro de manhãs primaveris.

Não! Não foste tu a culpada
Da arrelia entre o sol e a lua...
Dos ciúmes da dama prateada,
Ou da inveja à singeleza tua.

Acorda para a dádiva da vida,
Que harmoniza com tua beleza;
Deixe o onírico, venha pra lida,
Acompanhe-me por gentileza.

Os dilúculos raios do astro-rei
Convidam-na, ó flor-menina...
Traz o teu esplendor, que, sei,
Provoca o êxtase e alucina.

Mostre-me teu sorriso virginal,
Deixe teus sonhos, menina-flor!
Contemple este momento eternal,
Venha pra vida... Sinta o amor.


Nardélio F. Luz

domingo, 22 de janeiro de 2017

Amiga de Minh'Alma



Amiga de Minh’Alma


Falando em boas amizades,
Kátia é ímpar, não tem igual.
Sorriso que ilumina o mundo
De forma simples e natural.

Muito além de laços de sangue,
Essa prima doce e benevolente
Enche meu coração de alegrias;
Sempre aclara a alma da gente.

Foi assim comigo no passado,
Justo quando eu mais precisei,
E permanece assim ainda hoje:
Como ela consegue? Eu não sei.

Há certos seres neste mundo
Que já nascem diferenciados;
Os devotos generais de Deus,
Por Ele sempre abençoados.

São semeadores da bondade,
Com a vida a outros devotada;
Não importa o quanto sofram,
Mantém sua missão sagrada.

Deveras dedicada à família,
Jamais desdenha os amigos;
Não existe maior fidelidade,
Por testemunhar é que digo.

Assim é minha prima-amiga:
Ser humano bom e exemplar,
Que tem por missão na Terra
Ensinar-nos o dom de amar.


Nardélio F. Luz