sábado, 3 de setembro de 2016

Soberba Utopia




Soberba Utopia


Se você estivesse aqui,
Nada precisaríamos dizer,
E nossos olhares se tocariam,
Num mudo convite para o prazer.

Se você estivesse aqui,
O mundo seria mais bonito,
A chama da paixão explodiria,
Acelerando este coração desdito.

Se você estivesse aqui,
Nem desta cama sairíamos!
Porém, se tivéssemos que sair,
Por certo rapidamente voltaríamos.

Se você estivesse aqui,
Viveríamos em puro prazer;
Abriríamos o seu vinho preferido:
Reserva especial de Chateau Duvalier.

Se você estivesse aqui,
Nada nesta vida iria faltar;
Retomaríamos a senda original,
Sorrindo, de mãos dadas a caminhar.

Se você estivesse aqui,
Seriamos únicos no Paraíso.
Ah, lembra-se daqueles passeios?
É reviver tais momentos que preciso.

Se você estivesse aqui,
Findaria minha velha solidão;
Pois já te busquei em muitos braços,
E isso jamais assossegou meu coração.


Nardélio Luz
030916

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Tempestade



Tempestade


Os estrondos da tormenta
Transformam meu refúgio
E a proteção dos retalhos
Liberta-me de fantasmas.

Reles engodo a tripudiar,
Posto que lá fora haja lua
E aqui estranhas estrelas
Salpicam a obscuridade.

Peculiar a mente salutar
E suas miríades de astros
Nascidos da inexistência
Para desabonar as trevas.

Bem que da tempestade
Nenhuma chuva ou raio,
Pois que qualquer prélio
Só existe dentro de mim.


Nardélio Luz
280816

domingo, 14 de agosto de 2016

Um Homem... O Homem!




Um Homem... O Homem!


Na sua simplicidade e retidão,
Mais que um homem comum:
Um celeiro de dignidade;
Um dos prediletos seres de Deus.

Assim era e é aquele homem...
Assim será para todo o sempre,
Através das passagens e do tempo,
No desempenho dos deveres seus.

Lembro-me com carinho e ternura,
Da minha impetuosa adolescência...
Das contendas minhas, não dele,
Em que, ainda assim, me defendeu.

Ensinou-me a caminhar ereto,
A respeitar os respeitáveis,
A distinguir os bons dos maus,
A partilhar o que acreditava meu.

De coração estreme e altivo,
Alma límpida, nobre, e gestos gentis,
Era grande, amigo dos amigos,
O cerne do bom sentimento.

Se hoje me sinto alguém,
Grande parte devo a ele...
Meu maior motivo de orgulho,
Mais que pai: exemplo e fomento.

De natureza pacifica e mansa:
Era assim meu nobre guerreiro;
Se nalgumas vezes gargalhava,
Noutras se enclausurava na solidão.

Todavia, à necessidade de alguém,
Estava ele lá, por inteiro, solícito;
Sempre rígido com os maledicentes,
E aos afáveis, todo alma e coração.

Foi meu mestre na arte da superação,
E certamente teria orgulho dos meus resultados;
Não pôde me ler ou tocar minhas medalhas,
Mas soube, sabe ou saberá um dia.

Pois é grande meu esmero para me tornar
O excelso reflexo dos seus ensinamentos;
E embora eu pare as noites para descansar,
Retomo reto a cada manhã que principia.

Desde aquele melancólico novembro,
Em que aqui findou sua cumprida missão,
Que a saudade aperta meu peito
E, forte, fustiga minha lembrança.

Contudo, sou um praticante do desapego,
E sem insurreição ou remorso o deixei seguir;
Crédulo que num dia poderei reencontrá-lo,
Na sua digna disseminação da esperança.


Nardélio F. Luz

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Livre-arbítrio

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Livre-arbítrio


Bem lá atrás tentaram me convencer
Que eu era escravo desse tal destino;
Mas é algo que não dá para conceber,
Tampouco crer em tamanho desatino.

Em minhas crenças, poucas, bem sei,
Predestinação não é uma que acredito;
Se estiver equivocado, um dia saberei,
Mas até lá, minha lei é o livre-arbítrio.

Entendo que alguns não concordarão,
Inclusive lhes presto franca reverência,
Pois se me seguissem sem ponderação,
Revelariam sinal de pouca inteligência.

Meu caminhar é na fleuma do cansaço,
Pois o que almejo no fim deste caminho
Não está sujeito a tempo nem a espaço,
Mas ao que aprender, mesmo sozinho.

As léguas cruzadas e o tempo passado
Roerão o corpo, mas não minha calma,
E o sopro do conhecimento acumulado
Levar-me-á aos anelos de minha alma.


Nardélio luz
100816

domingo, 17 de julho de 2016

Fuga




Fuga


É para lá das coisas que respiram
Que fica o reino ignoto de onde venho.
É um lugar que ninguém daqui conhece,
Pois quem lá esteve, por certo não voltou.

Lá, a noite se alarga além das horas tardias
E a lua furta a superfície da própria corrida,
Impondo o lampejo de estrelas estranhas,
Numa sinistra configuração alienígena.

Os líquens não escolhem lado para crescer,
Apenas abraçam o tronco podre como salvador,
Ainda que as negras águas oleosas do rio abaixo
Neguem a vida, à colônia ou ao débil suporte.

Seres pequenos e arredios, privados de almas,
Com formas indizíveis e texturas repelentes,
Se arrastam sobre os pântanos infestados,
Sorrateiros, caçando e sendo predados.

Entre cá e lá há um vácuo monstruoso
Arrebatando o sono de qualquer pensante;
Um precipício disforme de escuridão silente
Que engole a quem ouse encarar tal loucura.

Alertei-vos, senhores, pois que não intuiriam
A minha predileção por estas vis correntes...
Mil vezes a constrição eterna das grilhetas
Do que a agonia de lá ter que retornar!


Nardélio F. Luz

domingo, 3 de julho de 2016

Biluxa

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Biluxa


Sentado no velho tronco — cujo cerne secular servira de banco a várias gerações — observei disfarçadamente o velho ao meu lado. A trêmula mão esquerda repleta de calos segurava o prato — já quase sem esmalte devido aos inúmeros tombos — enquanto a direita levava o garfo cheio à boca. Era estranho como ele abria exageradamente a mandíbula, quase rasgando a pele fragilizada pela idade, forçando ao máximo os sulcos queimados de sol. A barba de três ou quatro dias acentuava ainda mais a decrepitude e, sem entender porque, meu coração se enternecia a ponto de lágrimas quase brotarem dos meus olhos. Eu disfarçava e pegava uma garfada do meu próprio prato, não era prudente demonstrar emoção àqueles seres xucros ao redor, totalmente alheios aos meus sentimentos. Meu coração se constringia com a mistura ádvena de amor e pena por aquela criatura simples, que nada sabia da vida fora da fazenda e do arraial que morava à légua e meia dali, mas dava aulas a qualquer mestre acadêmico na disciplina de “viver”. Percurso de légua e meia, aliás, que fizera a pé de manhã e a tarde em pelo menos 60 dos seus mais de 70 anos de vida calejada pelas intempéries. Diziam que Biluxa era apelido, que ele tinha um nome, mas nunca houvera qualquer documento que o provasse. Seus olhos tristes nunca tinham mirado uma cidade e seus pés calejados jamais sentiram a maciez do couro de um sapato, mas aquilo não o incomodava em absoluto, já que ali tinha tudo o que precisava para viver. Com a angústia apertando inexplicavelmente minha garganta, larguei o prato pela metade, a comida tinha esfriado. Ele colocou o dele — já vazio — de lado sobre o tronco, sacou palha, canivete e um pequeno pedaço de fumo da algibeira. Sem fazer ideia da minha admiração, aquele ser quase mítico intercalou as fedidas baforadas com alguns dedos de prosa dirigidos a um ou outro dos companheiros, sobre qualquer assunto que lhe vinha à telha grisalha. Era um anjo num oásis de paz, livre do jugo religioso e de toda e qualquer degradação humana. Deve ter subido direto para o céu, pois embora sábio na arte de viver, partiu deste mundo quase tão inocente quanto chegou, e sem deixar qualquer desafeto.


Nardélio F. Luz

terça-feira, 3 de maio de 2016

Alhures



Alhures


Bem longe, naqueles tempos idos há muito,
Perdidos nas vertentes das eras e da memória,
Aonde a brisa acariciava delicadamente as flores
Dos aromais jardins explanados nas campinas,
Era tu uma delas: era, pois sim, a mais bela.

Por grande mérito a bênção fresca a envolvia,
Tal qual perpetra com esmero, ainda por estes dias;
Pois que, com o brio dos que possuem alma e coração,
Abdicaste do vigor do caule para te tornares humana,
Unicamente para amar e auxiliar aos teus caros.

Que te sejas ofertado, então, o respeito dos seres
E as estimas dos que ainda estão e dos que partiram,
Pois é certo que esses cantem e rejubilem ao tocar-te,
Tal como fizeram os elementos nas tuas alvas pétalas,
No experimento de render-te homenagens à altura.

Que Boas Novas persistam cavalgando os ventos
Entre canyon’s, sobre o mar e através dos bosques...
Que jamais percam o sublime propósito de abraçar-te,
Com tal afeto que aplaca as dores e dissipa mágoas,
Qual a natureza divina de um abraço de Deus.

A mim, contudo, que remei com displicência,
À espera de ser engolido pelo faminto horizonte,
É obvio que não houve porto, norte ou lembrança,
Mas a desolação cinzenta da minha alma errante,
E o escárnio das gargalhadas às minhas costas.

Agora, Flor, que os anos foram e o vigor se esvai,
Receberás os lauréis de uma existência de virtudes,
Mas a este ser vil que zombou de todos os presentes,
O último será a noção do perdão que não praticou
E o abraço conivente da saudade angustiante.


Nardélio F. Luz