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terça-feira, 20 de setembro de 2022

V Camp. Bras. de Bocha – 2003 – Petrópolis/RJ


V Campeonato Brasileiro de Bocha – 2003 – Petrópolis/RJ.

 
Nardélio Fernandes Luz
 
Petrópolis era realmente uma cidade linda, com suas mansões espetaculares – várias em estilo europeu – entranhadas nas verdejantes montanhas do Rio. A única coisa lá que não me agradou, foi o frio. Detesto frio!
 
Como previsto, saímos da APARU na terça-feira às vinte e uma horas, num ônibus emprestado da Universidade Federal de Uberlândia. Dois motoristas se revezaram todo o tempo, de modo que o ônibus só parou em lugares estratégicos, para as necessidades básicas do grupo. Como algum tempo antes – numa viagem de turismo que fizemos ao Rio de Janeiro –, viajamos pelo estado de São Paulo. Além das estradas do estado vizinho ser bem melhores que as de Minas, a maioria das paradas possui banheiros adaptados para deficientes – o que para muitos é imprescindível.
 
Já no estado do Rio, descemos a vertiginosa Serra das Araras, deliciando-nos com a belíssima paisagem. Passamos pela periferia da capital carioca, subimos as deslumbrantes serras que dão acesso a Petrópolis e finalmente chegamos ao destino – quinze horas após a partida. Apesar de bastante cansado, senti que ainda podia aguentar muita coisa naquele dia; quinze horas sentado numa posição não foram suficientes para me baquear. Meu corpo estava se adaptando bem às longas viagens, o que era uma bênção para alguém meio nômade – a quem Deus tirou as pernas, mas deu rodinhas.
 
O SESC Nogueira é um belo clube entranhado nas montanhas ricas em vegetação da Mata Atlântica. Assim como todas as outras delegações, ficamos alojados no hotel do próprio clube. Todo o perímetro é possuidor de rampas adaptadas para cadeiras de roda – o que facilitou em muito nossa vida. Participaram do “V Campeonato Brasileiro de Bocha” um total de quatorze delegações, vindas de várias regiões do país. Pude identificar Curitiba e outras cidades do Paraná, Campo Grande, São Paulo, Mogi das Cruzes, Guarujá, Uberaba, Rio de Janeiro, Petrópolis e outras. Nossa delegação foi composta por dezesseis pessoas: seis atletas, seis apoios, a técnica, a coordenadora da APARU e os dois motoristas. As outras delegações tinham composição semelhante ou acima, porém, não ultrapassando dez atletas.
 
Ao chegarmos naquela quarta-feira, almoçamos, descansamos cerca de hora e meia e em seguida participamos da abertura dos jogos. Eu, Valmir – meu companheiro de equipe – e vários atletas de outras delegações, tivemos que passar por uma classificação, que define se o atleta está dentro dos padrões físicos exigidos para praticar o bocha e o enquadra na classe específica.
 
Várias partidas foram realizadas naquela mesma tarde, inclusive minha primeira – na qual venci sem muitas dificuldades uma atleta de Uberaba. O Cowboy – apelido do Valmir – foi derrotado na sua primeira participação, em decorrência do nervosismo inicial, mas após algumas palavras de incentivo, se viu apto a continuar lutando.
 
O Bocha é dividido em quatro categorias: BC-1, BC-2, BC-3 e BC-4 e estas são classificadas por nível de deficiência. A BC-4 – da qual eu e Cowboy fazemos parte – inclui os tetraplégicos que não possuem movimento de tronco e os membros superiores são comprometidos, mas ainda conseguem lançar a bola com a mão – com uma delas ou as duas ao mesmo tempo.
 
Sendo marinheiro de primeira viagem, fiquei surpreendido com a organização e o alto nível da competição. Os árbitros eram compostos por professores e estagiários de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Houve também a presença na abertura e encerramento de membros do Comitê Para-olímpico Brasileiro, assim como outras autoridades do esporte para-olímpico e principalmente do bocha.
 
Apesar de bem agasalhados, no segundo dia de competição o frio castigou ainda mais que no primeiro. Saímos do hotel e chegamos às quadras com os dentes cerrados e batendo queixo, ainda assim, consegui minha segunda vitória, derrotando um atleta fortíssimo de Mogi das Cruzes. A partida foi muito disputada e em várias jogadas arrancamos aplausos entusiasmados de ambas as torcidas – o que faz muito bem ao ego do atleta. O Cowboy obteve sua primeira vitória na segunda partida, e apenas um dos atletas da APARU perdeu naquela manhã. Estávamos indo bem.
 
O frio apertou ainda mais e – acreditando não ter mais nenhuma partida naquele dia –, após o almoço no restaurante do hotel, subi para o quarto. Entretanto, assim que Douglas – meu sobrinho e apoio – me deixou debaixo de grossos cobertores, chegou o aviso inesperado de que eu ainda iria competir naquela tarde. Voltei ao ginásio às pressas, quase congelando de frio – sequela da lesão-medular severa de um tetra – e nem um copo de café quente deu jeito nos tremores do meu corpo. O frio intenso causava espasmos nos meus braços e isso destruiu a pouca concentração que havia conseguido naquela última meia-hora.
 
Eu já estava na disputa da medalha de prata na categoria individual BC-4 e – ainda que meu corpo estivesse em condições normais – seria muito difícil vencer aquele adversário com oito anos de experiência no bocha. Como se a experiência não bastasse, a deficiência do cara não era por lesão medular, portanto, não era tão castigado pelo frio. No mais, era da fria Curitiba e o clima de Petrópolis era como se fosse seu habitat.
 
Dei o máximo e consegui complicar um pouco a partida, mas de nada adiantou e fui derrotado. O Cowboy venceu a outra semifinal e garantiu, ao menos, a medalha de prata para nossa equipe – o que me deixou feliz e amenizou parte da frustração. Após minha primeira derrota, voltei ao hotel e o frio era tanto que não deixei os cobertores nem para descer ao restaurante. Douglas levou-me o jantar no quarto.
 
No terceiro e último dia de competição, o sol despontou timidamente por trás das montanhas enevoadas da ex-região imperial, mas, ainda assim, o vento frio enregelava a pele e não encorajava a tirar os agasalhos. Alguns adolescentes corajosos – entre eles meu sobrinho – se arriscaram nas águas gélidas das piscinas.
 
A experiência do meu adversário dominou a partida e perdi também a medalha de bronze da categoria individual. Ainda assim, recebi elogios dos organizadores e até de membros de outras delegações, ao saberem que eu treinava apenas a dois meses  e uma vez por semana. O quarto lugar numa competição com atletas de tão alto nível – levando em consideração minha inexperiência – era algo admirável segundo eles. Todos me incentivaram a continuar e era exatamente o que pretendia fazer. Antes eu treinava pelo exercício físico – que é quase nulo neste esporte – e oportunidade de viajar, mas minhas prioridades mudaram ao sentir que realmente podia competir.
 
Nossos dois maiores candidatos a medalhas não tiveram muita sorte. Daniele, a atleta da classe BC-3 – joga com o auxílio de uma calha – mais forte da nossa equipe perdeu para uma garota excepcional de São Paulo. Múcio – o BC2 que possui várias medalhas e experiência internacional – não foi de todo mal, pois ficou com o bronze da sua classe, mas ainda assim podia ver a decepção estampada em seu rosto.
 
O Cowboy foi uma das grandes surpresas. Numa partida emocionante, em que o vimos tremer na base contra um jogador excepcional de Mogi das Cruzes – favorito da classe BC-4 –, conquistou a medalha de ouro. Silvia – que joga com os pés – ganhou prata por pontuação na classe BC-1.
 
Ainda tinha a disputa em duplas. Eu e Cowboy superamos equipes de peso, como a do Rio de Janeiro, e ganhamos bronze. A prata ficou com a dupla de São Paulo e o ouro com a fortíssima dupla de Mogi das Cruzes. Em verdade, não houve qualquer surpresa nos jogos em duplas.
 
Tive que estudar as principais regras do jogo numa apostila dois dias antes da competição, mas valeu a pena o esforço. Não posso negar que foi emocionante conquistar uma medalha – ainda que de bronze – em um campeonato nacional com atletas de nível internacional. Foi colossal a sensação da medalha e mesmo o quarto lugar na categoria individual representou uma vitória bastante significativa.
 
A premiação foi no salão de cerimônias do hotel, e a maior surpresa foi o terceiro lugar conquistado no geral pela nossa equipe. O Troféu de terceiro lugar é maior e mais bonito que a maioria dos primeiros lugares que já vi por aí e ficará na sala de troféus da APARU, dando um lugar de destaque ao bocha – ao lado de modalidades para-desportivas de maior expressão como o basquete, tênis de mesa, vôlei e atletismo. Uma conquista extraordinária da turma de sequelas severas.
 
Após a premiação, houve baile no salão do bar do clube, com participação da maioria dos atletas. Algumas delegações – inclusive da nossa vizinha Uberaba – resolveram partir naquela mesma noite. O baile foi animado por uma banda carioca – cuja escultural vocalista cantava e encantava a todos com voz de sereia. Nunca vi tantas pessoas dançando em cadeiras de rodas ao mesmo tempo. Quanto a mim – possuidor de experiências amargas no quesito dança em cadeira de rodas –, optei por ficar quieto num canto, curtindo um bom papo, merecidas cervejas e duas ou três caipivodkas.
 
Na madrugada – ao fim do baile, quando a maioria fora dormir – eu e alguns da minha equipe fomos para um barzinho fora do clube. Uma garoa gelada caía – molhando vagarosamente tudo que tocava –, mas o álcool presente nas minhas veias não me permitia sentir muito frio. O bar tinha as portas fechadas e alguns elementos de aspecto estranho vieram ao nosso encontro. Inicialmente apreensivo, tranquilizei-me ao sermos recepcionados pela equipe de São Paulo – detentora do troféu de primeiro lugar do campeonato. O bar estava apinhado e a fumaça no ar lembrava os saloons do velho oeste. À meia-luz, uma pequena banda local alternava vários estilos de músicas, do pagode e sertanejo ao rock brasileiro e internacional. Toda a equipe de São Paulo comemorava sua grande vitória e logo fomos contagiados.
 
Voltamos ao hotel na alta madrugada. Levantamos as onze, almoçamos as doze e, por volta das treze, deixamos a bela e fria Petrópolis, rumo ao aconchegante calor de Uberlândia. Na volta viemos pelas rodovias 040 e 262, onde pude constatar que – exceto em alguns poucos trechos – as estradas mineiras não estavam tão ruins assim. O que deixa muito a desejar é a falta de banheiros adaptados para deficientes nas paradas. Encontramos adaptações mais ou menos decentes apenas em Contagem e Luz.
Chegamos a Uberlândia por volta das quatro da matina. Na bagagem trazíamos uma medalha de ouro, uma de prata, três de bronze, o troféu de terceira melhor equipe do Brasil, peitos cheios de orgulho e a esperança de um futuro de treinamentos e vitórias mais significativas. No mais, sonhar não paga nenhum imposto... Por enquanto.
 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Mulheres Songamongas x Mulheres de Fibra

https://pixabay.com/
Concordo plenamente com a escritora Lya Luft no que diz respeito a um dos seus belos textos que recebi de uma amiga via e-mail, com o título “PQP”. Nesse há frases como: "Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade”, “Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos” e “Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem".

Sem dúvida a escritora se refere à literatura, contudo, a pertinência de suas frases vale para tudo o mais na vida da mulher, sobretudo a preferência dos homens.

Em outras palavras, mulher “songamonga” — que fica esperando tudo de mão beijada e não toma nenhuma iniciativa — há muito está fora de moda. Assim como também estão as que acham que nós homens somos superiores, que têm que ser submissas — dizem que há uma passagem da bíblia que afirma isso, mas lembro a todos que esse livro foi escrito há mais de dois mil anos e numa região cujos costumes se diferem dos nossos. Também está em desuso a mulher crer que as responsabilidades maiores são nossas e os direitos delas, ou vice-versa; ou mesmo aquelas que teimam em tentar imitar-nos.

O perfil da mulher do texto é o que eu e a maioria dos homens de personalidade amaríamos. Que dá o melhor de si no que faz, fazendo do seu jeito, sem se importar se está melhor ou pior que o do homem. Que respeita, mas acima de tudo exige ser respeitada. Que não se sujeita a abusos de qualquer espécie, que goze — escandalosamente ou não — sem qualquer resquício de constrangimento, e nada faça sem que esteja com vontade. Que não aceita o açoite, seja ele físico, moral ou psicológico. Que trabalha, estuda e dá duro para criar e educar os filhos sim, mas que exija o mesmo dos cônjuges e não aceite menos. Afinal, caso contrário cabe bem a máxima “antes só do que mal acompanhada”.

Foi uma assim que amei muito um dia. E é uma assim que estou aprendendo a amar hoje. A respeito, por tudo que é e representa. Pela força extraordinária que possui, pelo quanto é doce quando tem que ser e pelo quão endurece quando é necessário. A admiro como mulher guerreira, que conquanto tenha seus momentos de fraqueza e desalento — comum a todos nós —, persevera onde a maioria desiste e vence onde outras sequer sonham chegar. Por saber a hora de sentar na calçada e descansar, antes de prosseguir com a caminhada. A amo por exigir respeito, mas não antes de dar o exemplo. Por entender que um pouco de ciúme é bom, mas o excesso atrapalha e causa sofrimento mútuo sem nenhuma necessidade. Ela me fascina por confiar em mim, mas, sobretudo confiar em si mesma, a ponto de entender que um homem sem liberdade jamais conseguiria ser feliz.

Conquanto eu tenha tentado com mulheres submissas e sujeitáveis em certas alturas da minha vida — que afirmavam amar, sem ao menos ponderar sobre o verdadeiro sentido da palavra —, meu sentimento não passou de interesse superficial ou meramente sexual, que desfaleceu na primeira decepção real. Era mais uma prova da efemeridade da beleza física perante os portentos da inteligência e simplicidade, que me encantam desde sempre. Aquele amor por uma mulher de fibra — dona de iniciativa e personalidade forte — que me embalou anos a fio, só foi substituído no meu coração pelo Amor Sublime que poucos conhecem, esse que permite amar sem tocar e sentir saudade sem dor.

Claro, já fui tachado de radical, e muito provavelmente o seja, mas prefiro acreditar que sou exigente — como todos que se prezam deveriam ser —, bem como espero isso de qualquer mulher que, por ventura, venha me relacionar. Afinal, ser exigente é a prova cabal de que se ama, e é óbvio que para uma pessoa amar outra, antes precisa se amar de verdade. Quem diz “amo fulano (a) mais que a mim mesmo”, é fraco, mentiroso, sem personalidade e usa a falsa modéstia como escudo.

Sou cônscio de que, sendo como sou, é difícil cair verdadeiramente nas graças de uma mulher, mas contra possibilidades e probabilidades tem acontecido. Portanto não devo ser assim tão casca grossa, tampouco estar errado na minha visão do universo feminino. Então continuarei acreditando ter descoberto a trilha que leva à felicidade. Ao menos à fortuna a dois, pois a coletiva e pessoal eu já tenho, por ter muitas pessoas boas ao meu redor nas figuras da minha família e amigos, por estar respirando e pensando e ter a consciência de que o verdadeiro contentamento está dentro de nós, como um estado de espírito. É responsabilidade de cada um ser feliz e tal incumbência jamais deverá ser relegada a outros.


Nardélio F. Luz


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Um Tetra em Porto Seguro

Como sempre acontece em excursões, saímos duas horas e quinze minutos depois do previsto. Ou seja, saímos de Uberlândia às dezesseis horas e quinze minutos da quinta-feira-santa. Dizer que a viagem foi difícil é pouco: na verdade ela foi tortuosa. Mas, nada que eu já não estivesse esperando e previamente preparado. Embora o ônibus fosse relativamente novo, numa viagem tão longa – e muitos trechos da estrada parecendo as crateras da lua –, não poderia passar sem alguns incidentes: dois pneus furados e uma mangueira de ar estourada num espaço de poucas horas – já no calor escaldante da Bahia e em plena sexta-feira-santa, quando a maioria dos trabalhadores folgavam.

Conquanto tenhamos parado para jantar, lanches, almoço e idas ao banheiro, e as pessoas tenham saído para esticar as pernas, eu optei por ficar dentro do ônibus, pois a portinhola que separa a cabine era terrivelmente estreita e dificultava em muito minha transição, carregado por dois amigos.

De todos os lados eu só ouvia reclamações do quão longa era a viagem. Também tinha as minhas, mas as guardava somente para mim. Se tal viagem era exaustiva para as pessoas “normais”, imagina para um tetraplégico, que viajou imóvel quase todo o tempo. Os incômodos da imobilidade me faziam suar frio o tempo todo. Na madrugada pedi a um amigo para estender um colchonete no corredor e me deitar um pouco, mas aquela posição – com tantos buracos na estrada – também era péssima, incutindo dores nos ombros e outros, assim, logo que amanheceu, voltei à minha poltrona.

Numa poltrona de carro, por ser mais ou menos anatômica, meu corpo inerte encaixa bem e fica no lugar, mas na poltrona do ônibus eu escorregava pra frente a toda hora e um amigo – ou dois – tinha que me puxar para cima. Ou seja, meu constrangimento era mais pelo trabalho que estava dando aos meus amigos – que estavam ali para se divertirem – do que pela tortura que meu corpo estava sendo submetido.

Mas minha psique – bem preparada – aguentava firme. Meu corpo suava copiosamente, um suor frio e pegajoso, e calafrios percorriam minha espinha, eriçando os pelos dos braços. Os incômodos eram muitos, mas meu medo maior era de abrir escaras nas nádegas, pois essas famigeradas lacerações abrem da noite para o dia, mas levam anos para cicatrizarem – isso quando cicatrizam. Para quem não sabe, as escaras – também chamadas úlceras de decúbito –, são diferentes das outras feridas: elas se desenvolvem de dentro para fora e, quando se abrem, todo o tecido já está apodrecido, muitas vezes mostrando o próprio osso. No caso de escaras maiores, quase sempre é preciso enxerto de tecidos para a cicatrização.

Quase todos os adultos faziam uso constante de cerveja, na tentativa de amenizar o calor e as agruras, e eu não era diferente. Por fim, três horas após o último pneu furado, adentramos Porto Seguro. Cerca de vinte minutos depois, chegamos à pousada, pouco mais de vinte e sete horas após nossa partida em Uberlândia.

A pousada era bastante espaçosa e os quartos foram divididos levando em conta laços familiares e afinidades. Eu fiquei no quarto do meu amigo Délio e família. O cansaço era geral, mas com toda certeza o meu beirava a exaustão. Assim, meus amigos Délio e Willian me deram um banho frio e reconfortante – onde, após constatar não haver nenhum início de escara, tomei os cuidados necessários no tocante a evitá-las, pedindo ao Délio para fazer massagens nas nádegas e costas, com muito creme hidratante. Mais uma Skol no bar ao lado da pousada para esperar o jantar, esse, e finalmente a cama. Antes de dormir, ainda uma preocupação: minha cadeira de rodas havia estourado um pneu traseiro e furado um dianteiro – acontecera misteriosamente no bagageiro do ônibus, sem que ninguém a tocasse.

A pousada ficava localizada no bairro do Areião – um pouco distante do mar – e o ônibus saia de manhã com o pessoal para as praias e só voltava à tarde. Embora tivesse algumas borracharias abertas, os profissionais, numa enorme preguiça – famosa em se tratando dos baianos –, davam uma olhada como quem não quer nada e diziam que meu pneu não tinha conserto. Somente à tardinha um dos motoristas do ônibus encontrou uma borracharia que colocou um manchão, que permitiria aguentar até a segunda-feira. Perdi todo o sábado da aleluia – ou quase todo, pois aproveitei do meu jeito, no barzinho ao lado... (risos).

No domingo de páscoa, embora o pneu dianteiro da cadeira estivesse novamente vazio, encheram-no com o ar do ônibus – coisa que não durou muito – e acompanhei a todos para a praia Coroa Vermelha, onde fora rezada a primeira missa, quando Cabral chegou ao Brasil. Não podia acionar os motores da cadeira, por causa do pneu murcho – que só pode ser comprado na fábrica, no Rio Grande do Sul. Mas fiquei o tempo todo junto com a turma – à sombra, claro – e o dia foi regado à cerveja, petiscos da culinária baiana e banhos de mar. Que delícia é o mar! À tardinha, de volta a pousada, mais cervejas no bar, jantar e cama.

Na segunda-feira decidi ficar na pousada, a fim de resolver de vez o problema dos pneus. Seu Bené, o dono da casa – um simpático baiano de meia idade, que, junto com a também simpática esposa, mantém impecavelmente a higiene do lugar – levou o pneu dianteiro a uma loja de bicicletas e adaptou uma câmara de ar nova. Desta forma – acompanhado pelo meu amigo Hermes e esposa, que também haviam ficado na pousada –, eu mesmo levei a cadeira à loja e mandei substituir o pneu traseiro.

Novamente se destacou a famosa preguiça local: “Tem desse pneu aqui não”, respondeu no sotaque característico, um sujeito atlético de bermudas e Havaianas, que não despregava a bunda de um banquinho sujo de graxa. Já irritado com o mau-atendimento, eu retruquei um tanto áspero: “Sei que não tem, pois esse pneu é original e só vende na fábrica ou lojas especializadas da Freedom, mas você pode substituí-lo por um de bicicleta que tenha o mesmo aro”. “Pode ser..., vamos ver..., espere um pouco...”

Minha irritação era crescente, mas me calei e tratei de exercitar a paciência, afinal, o precisado era eu. Depois de terminar o desmonte de uma bicicleta infantil – pouco menos de meia-hora – o cara tirou a bunda do banquinho. Colocou uma cadeira de madeira ao lado da minha e ficou olhando para a minha cara. Quando me dei conta da sua intenção, não pude conter um largo sorriso. “Eu não saio da cadeira, moço... Você vai ter que levantá-la um pouquinho e colocar um calço”. “Ah... Ta bom...”, finalmente a ficha dele caiu. A essa altura, a oficina já estava cheia de gente, fazendo perguntas como se a cadeira motorizada fosse extraterrena. Hermes o ajudou a içar a cadeira e colocar o calço. O rapaz até que foi eficiente quando começou a trabalhar: após testar três pneus, me pareceu mais adequado o último – de bicicleta cargueira –, que embora o dobro do preço, era bem mais reforçado.

Terminado o trabalho, paramos numa pracinha para um lanche rápido e levamos cerca de quarenta minutos para fazermos o percurso de volta – pouco mais de seis quarteirões –, devido ao péssimo estado do calçamento das ruas. A cadeira pulava como um cabrito e, por várias vezes temi que ela se quebrasse, ou se desmanchasse. Foi realmente um teste de alta resistência. Aqui afirmo com todas as letras: quanto mais cidades eu conheço, mais amo minha Uberlândia, que segundo informações não-oficiais, em âmbito nacional só perde para a grande Curitiba em adaptações para cadeirantes.

Novamente esperei a chegada da turma no barzinho, ao lado da pousada, que embora “copo-sujo”, possuía um ótimo atendimento. Naquela noite houve churrasco e forró na pousada, em comemoração ao aniversário de uma das excursionistas, e eu me esbaldei.

De cadeira zerada, aproveitei o resto da semana nas belíssimas praias de Porto Seguro. Dentre todas, as que mais gostei foram as dos complexos de lazer “Barramares” e “Axé Moi” – pronuncia-se axé moá. A turma ainda fez excursões para a cidade histórica, Troncoso, passeios de escuna para mergulhos nos corais, e outros lugares que não me interessaram, devido à péssima geografia, que em nada alivia e, muitas vezes, torna impossível a locomoção de um cadeirante.

Embora eu – branco como cera – procurasse sempre as sombras, fizesse uso constante de protetor solar, bebesse muita água-de-coco, mineral e “outros líquidos”, fiquei bastante queimado. Minha exposição ao sol se dava mais quando eu me arriscava nas pedregosas ruas da cidade – nas quais levava pouco mais ou menos dez minutos para avançar um único quarteirão. Definitivamente – como a maioria das cidades históricas –, Porto Seguro não é lugar para cadeirantes! Nem mesmo à famosa “Passarela do Álcool” eu fui, devido às inúmeras dificuldades de locomoção. No Centro da cidade se pode encontrar algumas poucas rampas de acesso às calçadas, mas não se anda vinte metros sem se deparar com degraus e desníveis, a maioria ascendendo trinta e quarenta centímetros.

As dificuldades não se limitam apenas aos deficientes, mas também aos idosos, grávidas e crianças pequenas, num descaso geral. Pude notar que deficientes naquelas paragens – sobretudo cadeirantes – são tão raros que, nas ruas, a maioria das pessoas me olhava como se eu fosse verde com anteninhas na cabeça e minha cadeira tivesse saído de “Guerra nas Estrelas”. E ainda faziam comentários em voz alta, que me divertiam muito. Meu amigo Délio dizia que ali eu era um astro. E, como tal, eu distribuía sorrisos para todos que me encaravam (risos). Eu sempre me divirto muito com essas coisas.

O objetivo principal desta narrativa é mostrar aos deficientes – principalmente aos cadeirantes – que qualquer um, independente de deficiência, pode viajar e se divertir. Embora nossas dificuldades sejam infinitamente maiores que as das pessoas “normais”, são perfeitamente superáveis com um pouco de ajuda, e há realmente vida após a paralisia. Com tantos lugares bacanas por perto para se visitar, não é preciso se sacrificar em longas e cansativas viagens de ônibus. Eu o faço porque gosto de testar meu corpo, e desta vez o levei ao limite extremo, numa viagem totalmente desproporcional a um tetraplégico. E meu corpo aguentou firme. Sofreu um bocado, mas aguentou! Mais uma vez provei a mim mesmo que, se a mente quer, o corpo aguenta.

Não há porque as pessoas com dificuldades de locomoção ficar enclausuradas em casa, expostas ao estresse e à famigerada depressão. Temos mais é que nos mexermos, divertirmo-nos... Deus tira nossas pernas, mas nos dá rodinhas. Temos que viver, pois a vida é muito curta para ser desperdiçada choramingando e esperando milagres, e dela só levamos nossas próprias experiências. Eu só não me diverti mais porque para tudo que eu queria – passeios de bugues e ultraleves – faltou grana, mas o que fiz já está de muito bom tamanho.

Na quinta-feira, a maioria das pessoas já estava com saudades de casa. Eu não era diferente: ansiava por rever minha família; pela solidão calma e consentida do meu quarto; minha cama, que me permite sentar; meus livros e filmes; o computador, que dá acesso aos meus amigos mais distantes; e até do mais peralta dos bichos, meu cachorro “Zoreia”. Não creio voltar mais a Porto Seguro, pois a cidade definitivamente não oferece suporte nenhum a cadeirante, e o desdém das pessoas quanto a isso é notável. E não apenas por isso, mas também porque o Brasil possui tantos lugares lindos e interessantes, que se pode viajar a vida inteira sem precisar repetir um só lugar. 

A viagem de volta, embora uma hora a menos – viemos em pouco mais de 26 horas –, foi tão ou mais torturante que a ida, pois o cansaço era maior e já não tinha mais a euforia da farra. O Délio – que havia deixado o carro no pátio da empresa de ônibus – deixou-me em casa ao cair da noite de domingo. Eu estava exausto, suado, imundo e com os pés e pernas tão inchados quanto balões de parque de diversão. Mas também estava com a mente aliviada, sem estresse, e assim permanecerei por algum tempo, até que seja preciso sair para espairecer novamente. O saldo total da viagem foi, a meu ver, 80% positivo e 20% negativo. Valeu a pena... E como valeu a pena!

Nardélio F. Luz

Sexualidade de Um Tetraplégico


Falo com prazer sobre sexualidade porque acho um absurdo em pleno século XXI esse assunto ainda constituir um tabu para muita gente, inclusive para as pessoas com deficiências. Não é nenhuma vergonha falar sobre sexo. Vergonha é não se informar, já que a falta de informações leva a julgamentos errôneos e esses ao preconceito e a discriminação.

É quase inacreditável que mesmo nos dias de hoje, com informações sobre tudo ao alcance de um clique, ainda existam famílias que — por ignorância, falta de cultura ou mesmo fanatismo religioso — tratam seus entes com deficiências como crianças ou seres assexuados, restringindo seus direitos de escolha e até proibindo namoros ou todo e qualquer tipo de contato sexual. É como se esses fossem seres vegetativos, insensíveis aos desejos e prazeres do sexo. Verdadeiros prisioneiros da ignorância.

Anos atrás, quando mergulhei em um rio raso e sofri a lesão medular que me deixou tetraplégico, também cheguei a pensar que jamais sentiria os prazeres do sexo novamente. Fui tomado pelo auto preconceito e confesso que naquele momento tal pensamento me impactou muito. Mas, graça a Deus eu estava equivocado, pois o sexo entre os deficientes existe e — feito de forma adequada, com os devidos cuidados e a pessoa certa — é tão ou quase tão prazeroso quanto entre os não deficientes.

Apesar que esse é um termo relativo, pois a perfeição humana não existe e em grau maior ou menor e de uma forma ou de outra, todas as pessoas têm alguma forma de deficiência.

Ainda nos primeiros dias de convalescença no hospital, embora o corpo estivesse totalmente paralisado, à proximidade de uma jovem enfermeira fui surpreendido por uma onda de tesão avassaladora. Enquanto a garota fazia os procedimentos junto ao meu leito, pude captar seu perfume e esse fato junto à visão das belíssimas curvas e da pele fresca aguçou minha libido a um patamar alcançado poucas vezes antes. A partir dali notei o quanto ainda sentia desejo e o quanto esse me perturbava.

Foi uma época que também senti muita raiva, pois se meu corpo estava paralisado e incapaz de sentir e reagir, por que raios o cérebro continuava gerando aquelas sensações todas? No mais, ainda que eu pudesse dar prazer a uma fêmea, que mulher ia se interessar por um corpo paralisado, pele sobre os ossos? Um pensamento me açoitava diariamente, sobretudo nas intermináveis madrugadas insones: Quem gosta de cérebro é zumbi

Entretanto, como já mencionei, eu estava completamente equivocado e os meses posteriores vieram a provar isso. Ao ter alta do hospital, pedi a um amigo que me trouxesse tudo que ele pudesse conseguir na literatura sobre lesão medular. O objetivo maior era estudar o máximo a respeito do meu problema, para não ter falsas esperanças no tocante de voltar a andar, mas também aprender algo sobre sexualidade pós-deficiência e os cuidados necessários para a manutenção da saúde do meu corpo.

Nesses estudos descobri que, embora não seja por vontade própria, o pênis do lesionado medular pode ficar ereto. Esse fato acontece à revelia do cérebro, causado por espasmos raquimedulares — os mesmos espasmos que levam as pernas de um deficiente a se moverem sozinhas. Ou seja, embora eu não o sentisse, através de estímulos externos meu pênis podia ficar ereto e talvez eu pudesse dar prazer a uma mulher. E na transa não é este o principal objetivo do homem, satisfazer sua parceira?

A essa altura eu já tinha recuperado o movimento dos ombros e um pouquinho dos braços. São esses poucos movimentos que mantenho até hoje, porém mais fortalecidos, e com o uso de adaptadores palmares consegui alguma independência como digitar no computador, me alimentar e escovar os dentes sozinhos, controlar a cadeira de rodas motorizada etc.

Embora minha mão não se movesse, aproveitei o pouco movimento do braço direito para tocar meu pênis e este realmente reagiu ao estímulo. Pronto, pensei feliz da vida, agora só falta uma parceira para realizar alguns experimentos. Não obstante, o trauma era muito recente e eu ainda não conseguia evitar meu próprio preconceito. Ponderava com meus botões que o maior problema continuava: que mulher ia se interessar por um homem quase totalmente paralisado?

Com o apoio irrestrito da minha família comecei a fazer parte da APARU – Associação dos Paraplégicos de Uberlândia, onde fui apresentado a outras pessoas com deficiências e seus familiares. Nessa época conheci também a clínica de fisioterapia da UNIT – Universidade do Triângulo, que posteriormente se tornou a UNITRI. Fazia fisioterapia nas duas instituições e, com a conquista das novas amizades e a reaproximação de algumas outras mais antigas, minha vida seguia em frente e eu via a paralisia cada vez com mais naturalidade.

O tempo foi passando e eu aproveitava todo momento que estava sozinho para me tocar. Descobri que, conquanto não sentisse realmente, experimentava um certo “formigamento” — creio que mais mental do que físico — e aquilo incutia algum prazer. A libido estava cada vez mais ativa, sobretudo quando sentia o perfume de uma mulher ou a via em trajes sensuais — que num país tropical como o nosso é bastante comum, sobretudo porque a natureza é bastante generosa com as mulheres brasileiras.

Tendo sido privado da vida sexual em pleno auge, aos trinta e um anos, meu cérebro parecia incendiar à simples lembrança de uma mulher nua nos meus braços. Minha boa memória tinha se tornado então uma espécie de maldição, pois eu lembrava nitidamente de cada detalhe das minhas transas passadas, de cada curva, de cada gemido, de cada tremor das minhas parceiras. Lembrava do cheiro, do gosto, e quase podia senti-los. Chegava a sonhar várias noites seguidas com transas e orgasmos deliciosos, quase sempre com uma ex-namorada de Ribeirão Preto, que fora a mais recente e por isso as lembranças continuavam vívidas na minha mente.

Gradativamente também fui percebendo que as partes do corpo que ainda sentia: ombros, pescoço, orelhas e nuca haviam se tornado muito mais sensíveis, a ponto de uma simples carícia me incendiar. Eu acabara de conhecer pessoalmente uma amiga com a qual me correspondia desde antes da paralisia. Era uma garota jovem, inteligente e belíssima, de corpo escultural e alma nobre. A primeira que buscou algo em mim além da aparência externa — que àquela altura já estava parecendo um ET: cabeça e barriga enormes, pernas e braços finos.

O interesse da garota culminou em beijos e acho que só não foi além devido à falta de tempo e lugar apropriados. Sua virgindade não constituía obstáculo, uma vez que poderia ser facilmente preservada no sexo oral. Mas o breve contato me mostrou que eu ainda podia beijar muito bem; e quão mais prazeroso havia se tornado o beijo na boca com aquela nova sensibilidade mais aflorada!

Vez ou outra eu locava um filme pornográfico para tentar aplacar o fogo que ardia cada vez mais. Ao mesmo tempo que as cenas de sexo constituíam uma tortura, era também muito gostoso e me fazia desejar cada vez mais uma mulher. As sensações cerebrais eram extremas, chegando a causar pequenas vertigens. O que mais desejava era ter a boca, o corpo e, sobretudo o sexo de uma mulher ao alcance dos meus lábios; poder explorar sua intimidade com a língua e os dentes, até senti-la se desmanchando. Eu sentia muita saudade de um corpo feminino estremecendo em meus braços, do suor, do cheiro, dos gemidos roucos, das palavras ininteligíveis. E queria mais que nunca sentir o gosto arrebatador da intimidade feminina.

Embora eu permaneça solteiro e minha filha — que é minha melhor parte — tenha sido concebida antes do acidente que me paralisou, aprendi nos meus estudos solitários que a deficiência não impede a pessoa de ser amada, casar e ter uma vida sexual e até filhos. O tetraplégico por lesão medular não ejacula normalmente, mas seu organismo continua produzindo espermatozoides. De forma que seu esperma pode ser colhido e introduzido na parceira, possibilitando-os terem filhos legítimos.

Devido à impossibilidade de ejaculação normal, o esperma produzido pelo tetra é expelido gradativamente junto à urina. Esse processo acontece de forma tão sutil que raramente é notado. Não obstante, estudos mais recentes me mostraram que já existem certos massageadores penianos que podem levar o lesado medular à ejaculação e, portanto, fecundar a parceira sem ser preciso recorrer ao processo cirúrgico.

É fato que embora o lesado medular — sobretudo o tetraplégico — não sinta o pênis, a ereção induzida por estímulos externos realmente o habilita a penetrar uma mulher e proporcionar prazer a ela. Como em toda regra há exceção, em alguns casos a ereção não consegue atingir o ápice, de modo que não há penetração, mas nem por isso a pessoa está indisponível para o sexo. Basta usar a imaginação e criatividade para explorar novas possibilidades.

Aprendi que existem vários tipos de deficiência física, cada uma com sua peculiaridade. O deficiente por sequela de poliomielite — paralisia infantil — bem como o paralisado cerebral perdem a capacidade motora, mas continuam com a sensibilidade preservada, de forma que devidamente estimulados podem chegar ao orgasmo e ejacular normalmente. Dessa forma podem conceber filhos sem as dificuldades implicadas aos lesionados medulares.

Na sexualidade do deficiente é de suma importância a compreensão da parceira ou parceiro. A lesão medular acarreta a perda do controle da bexiga e dos intestinos, devido a isso — sobretudo nos lesionados recentes — pode haver acidentes durante o coito, como a perda de urina ou, em casos mais raros, de fezes. Pois à revelia do controle cerebral os movimentos podem estimular esses órgãos, acarretando os acidentes citados.

Nessas horas especialmente é que a compreensão da parceira ou do parceiro se torna imprescindível; e até mesmo do próprio deficiente, que se vê de repente numa situação inusitadamente constrangedora. Sendo assim o adequado a fazer é dialogar bastante, prevenindo ambos para a possibilidade de tais acidentes.

Para o deficiente que faz cateterismo — esvaziamento da bexiga por meio de sonda —, o correto é lançar mão desse recurso antes de iniciar o coito. Há também aqueles que usam sonda uretral permanente, cujo tubinho deve ser devidamente ajeitado — dobrado paralelamente ao pênis — de forma a não machucar a parceira nem o próprio.

Em casos como os citados acima o ato sexual exige alguma preparação antecedente, mas nada que um pouco de paciência e bastante compreensão não possam dar jeito. O mais importante nisso tudo é saber que nenhuma forma de deficiência física impossibilita a pessoa para os prazeres do sexo.

Após o breve contato com minha jovem amiga, percebi que embora meu físico não encorajasse, realmente existem mulheres que valorizam mais do que corpos bonitos. Pensando assim o que se tornou de suma importância na minha vida foi preservar a saúde do corpo, mas principalmente cuidar da mente. E desta eu cuidava muito bem, lendo, escrevendo e mantendo-a ativa de forma que não fosse dominada pela ociosidade.

Nessa época uma ex-namorada dos tempos áureos entrou de férias no trabalho e veio com o irmão me buscar para passar alguns dias com eles no estado de Goiás. O calor era extremo e usávamos roupas leves, de forma que as curvas femininas se destacavam e eu tentava disfarçar o fogo que me queimava por dentro. Ela ainda usava — ou voltara a usar por aqueles dias — o mesmo perfume suavemente amadeirado da época que namoramos. Às vezes eu me sentia provocado, mas a timidez se aliava ao auto preconceito para me inibir. Após alguns dias de flertes e reaproximação, ela tomou a iniciativa e eis que surgiu a oportunidade real de ter o corpo nu de uma mulher ao meu alcance.

O irmão dela saia todas as manhãs para trabalhar, nos proporcionando as oportunidades perfeitas, que eram muito bem aproveitadas. Ela tomava um refrescante banho matinal e passava o hidratante na minha frente. O fazia naturalmente, mas para mim parecia extremamente provocante. Geralmente era de natureza tímida como eu, mas também como eu tendia a perder a compostura na hora do sexo.

Meus sentidos pareciam ampliados e o olfato captava o cheiro afrodisíaco do corpo recém-banhado. A visão da fêmea nua fazia meu cérebro arder de desejo e mal podia esperar sua aproximação. Ela tomava todas as iniciativas. Estimulava minha bexiga com toques no abdome até a urina jorrar pelo canudinho, em seguida tirava o coletor e higienizava meu pênis.

Ao toque da mão da moça, a reação era imediata e a simples visão do seu gesto causava um desejo tão arrebatador que não pode ser descrito com simples palavras. O tesão às vezes chegava a causar dores psíquicas, sobretudo quando ela usava a boca e a língua atrevida. Às vezes de lado — posição que durmo, escorado por travesseiros —, ela me virava de costas para o colchão e procurava a posição que melhor se encaixava a minha condição inerte.

Tendo sua intimidade totalmente ao meu alcance, eu usava a mão paralisada em garra, a língua, o nariz, o queixo e qualquer protuberância do meu corpo que pudesse fazer fricção e estimular seu clitóris. Ela se virava e beijava minha boca, minhas orelhas, meu pescoço, arrancando descargas elétricas da minha espinha lesada. Depois ia subindo gradativamente, fazendo minha boca gulosa descer pelo seu corpo ardente, até colocar os seios ao alcance dos meus lábios. Ali eu sugava e mordiscava os biquinhos intumescidos, sentindo os tremores e ouvindo os gemidos femininos.

Completamente excitada, ela direcionava meu pênis para sua intimidade. Nalgumas vezes a ereção era suficiente para penetrá-la, noutras nem tanto, mas isso não importava, já que o verdadeiro prazer estava nos nossos toques e gestos preliminares. A meu pedido, minha amante mudava de posição, deixando sua intimidade úmida e cheirosa novamente ao alcance da minha boca. Eu voltava à carga até senti-la estremecer e se desmanchar nos meus lábios. Era impressionante a facilidade que ela tinha para atingir o orgasmo, e quão abundante era seu néctar íntimo.

Desde nossos bons tempos de namoro que tais dons dela me impressionavam e provocavam verdadeiro fascínio, pois quando eu chegava ao orgasmo ela já o tinha feito duas ou três vezes. Em seguida ao gozo, ela se deitava ao meu lado, suada, ofegante, cheirosa. Costumava lamber carinhosamente o remanescente do seu néctar no meu cavanhaque. Beijava minha orelha, meu pescoço e dizia palavras carinhosas, que eram imediatamente retribuídas.

Embora sempre ficasse a sensação de estar faltando algo, devido a minha incapacidade de ejacular e chegar ao orgasmo, eu me sentia bastante realizado por ter sido capaz de satisfazer minha parceira. Depois de alguns minutos de descanso, ao meu pedido ela voltava à ativa e todas as emoções se repetiam. Com exceção dos finais de semana, que o irmão estava em casa, aquele ritual prazeroso se repetiu todas as manhãs durante a minha estada.

Passado algum tempo reencontrei outra ex-namorada dos tempos de juventude. Eu não a via e nem tinha notícias há quase uma década e meia e no reencontro aconteceu algo como uma “paixão a segunda vista”. Com essa namorei oficialmente por cerca de oito meses e alguns mais extraoficialmente. E embora ela não tivesse a mesma facilidade que a primeira para atingir o orgasmo, o sexo era muito prazeroso.

Algumas vezes, nem com todos os artifícios orais eu conseguia fazê-la chegar ao ápice, mas aquilo não constituía problema, já que ela se masturbava para mim e aquela visão me excitava extremamente. Depois de atingir o orgasmo ela se oferecia novamente, inteira e sem pudor à minha língua gulosa.

Com o domínio da internet acabei conhecendo muita gente boa. Na rede eu participava de fóruns e salas de literatura, de pessoas com deficiências, de poesias etc. e tive alguns relacionamentos que começaram no virtual e posteriormente evoluíram para o real. Também tive alguns relacionamentos que nunca saíram do virtual, mas ainda assim ofereceram suas cotas de prazer a ambos.

Outras mulheres conheci presencialmente, já que tinha uma vida social razoavelmente ativa e sempre que podia participava de festas, botecos e outras diversões. Depois comecei a praticar Bocha Paralímpica, esporte que me levava para competir em todo o país. A maioria das mulheres que conheci na minha vida após a vida — virtual ou presencialmente — se tornaram minhas amigas e algumas o são até hoje, mas vez ou outra em alguns casos os sentimentos afloravam para outro patamar e acabávamos nos envolvendo de forma mais intensa.

Com o passar dos anos minha ereção foi ficando cada vez mais escassa, até desaparecer quase completamente, mas não atrapalhou minha vida sexual. Para suprir a deficiência de ereção eu fui procurando aos poucos conhecer outras formas de dar prazer a uma mulher. Formas essas encontradas basicamente em preliminares mais elaboradas, que muitos homens pecam ao não darem atenção.

Em mais de uma ocasião cheguei a cogitar a possibilidade de usar Viagra, uma vez que tive duas amigas virtuais casadas com tetras e garantiam que o comprimido funcionava. Uma dessas também costumava aplicar uma injeção na base do pênis do marido que segundo ela garantiam horas de ereção, mas esse processo e medicamento nem fiz questão de conhecer, já que sempre me pareceu muito invasivo e desnecessário.

O Viagra ainda não descartei de todo, já que sempre há a possibilidade de vir a conhecer uma parceira que faça questão de penetração. Inclusive já conversei com um médico a respeito e de minha parte não vejo problema em experimentar.

Quando se fala de sexo, automaticamente se pensa no coito, na penetração. Mas como já mencionei, as preliminares é que fazem uma transa ser boa ou não. E a verdade maior é que para um casal ser feliz não tem que obrigatoriamente haver sexo. O que leva à verdadeira felicidade é o amor. Sexo é um complemento e um meio de extravasar a paixão, mas o amor em si é muito mais que isso. O amor verdadeiro independe até mesmo de contato físico, é basicamente psíquico: carinho, ternura, atenção, cumplicidade, proteção, paciência e respeito.

Grande prova disso é que a Internet está cheia de casais que se amam e mantém relacionamentos a anos, sem nunca terem se encontrado pessoalmente, seja pela distância ou diversos outros motivos.

Sexo por sexo é delicioso, mas geralmente infringe os sentimentos e invariavelmente incute uma parcela de “culpa” após o ato. O sexo com amor é diferente: é divino, transcendental, arrebata o físico, extasia a psique e aproxima as almas. Entretanto o que importa realmente é que, com sexo ou não, a felicidade está ao alcance de todos e isso independe de ser ou não pessoas com deficiências.

Ademais acredito que as piores deficiências são as do caráter e da alma, cultivadas por pessoas negativas e desinformadas que estimulam o preconceito e a discriminação. Ainda assim essas podem ser suplantadas por informação e um pouco de boa vontade, armas poderosas que estão ao alcance de todos. Portanto, busque se informar para não julgar e, dessa forma nunca perder oportunidades valiosas.

Cada pessoa neste planeta é responsável pela própria felicidade, mas sem dúvida outras podem contribuir. Somos indivíduos que vivemos melhor em comunhão uns com os outros. Seja positivo e — sempre que for possível — estenda a mão ao próximo, assim nunca terá motivo para não ser feliz.

 

Nardélio F. Luz


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vida de Tetraplégico

Me foi pedido para escrever um artigo sobre tetraplégicos, e não obstante eu seja um representante da classe, não sei escrever artigos – em verdade não sei nem por onde começar. Contudo, no egocentrismo do meu conhecimento de causa, sei falar informalmente de mim e das pessoas que conheço que também o são. Isto, por si só, dá um texto e tanto, pois embora pareçamos todos iguais aos olhos preconceituosos dos leigos e soframos as mesmas sequelas, a individualidade humana não permite que existam dois iguais; somos, portanto, no máximo parecidos em físico e pensamentos e com necessidades similares. Mas não somos apenas isso...

Para começar, devo esclarecer – para a grande maioria que não sabe – a diferença entre o paraplégico e o tetraplégico. Uso como base para minha narrativa apenas as deficiências por lesão medular, porém, elucido que existem deficiências físicas causadas por outros fatores como Poliomielite, AVC, Paralisia Cerebral, etc. – cada qual com suas peculiaridades.


O paraplégico, em termos simplórios, é aquele deficiente cuja medula é lesionada a nível lombar ou torácico. Ele perde a coordenação-motora e sensibilidade das pernas, porém mantém o controle do tronco e movimentos e força dos braços e das mãos. O paraplégico consegue tocar a cadeira de rodas sozinho e transpor obstáculos, fazer transferências cama-cadeira-carro e vice-versa, dirigir, praticar a maioria dos esportes adaptados, assim como todas as outras atividades de vida diária; o que lhe permite uma vida quase que totalmente independente. Conheço paraplégicos que moram sozinhos e se viram muitíssimo bem.


Tetraplégico é aquele que tem a medula lesionada a nível cervical – pescoço – e perde a mobilidade de quase todo o corpo, sendo, portanto, dependente de outras pessoas para tarefas simples como se banhar, alimentar, evacuar, fazer transferências e todo e qualquer tipo de atividade física. Simplificando: o tetraplégico é totalmente dependente de outros para sobreviver. A tetraplegia, entretanto, se dá em vários níveis – de acordo com a altura da vértebra lesionada. Há aqueles que ficam totalmente paralisados e dependem de respiração artificial para sobreviverem; aqueles que perdem os movimentos das mãos e parcialmente dos braços – meu caso – e há mesmo aqueles cujas lesões são incompletas – com passagem de alguns impulsos cerebrais –, que permitindo sensibilidade parcial e certa coordenação-motora, o que os torna quase paraplégicos.


Não tenho o menor constrangimento em afirmar que, como tetraplégico, minha principal frustração é não ter ficado apenas paraplégico; e até me arrisco a dizer – sem medo de equivocar-me – que é a frustração de todo tetra, pois de todos os desconfortos causados pela quase completa imobilidade, sem dúvida o pior deles é a extrema dependência. Sobretudo porque nenhum ser humano nasceu preparado para viver duas vidas – e quem cuida de um tetra acaba por viver sua e a dele. E, conquanto a pessoa seja paciente e resignada, há horas em que o estresse a domina e acaba descarregando no dependente. 


Não estou insinuando que a vida do paraplégico é fácil, em absoluto não é, pois a discriminação e o preconceito não escolhem nível de lesão. Só quero deixar claro que o sonho primário do paraplégico é voltar a andar e o sonho primário do tetra é ser para.


Não tenho a pretensão de alongar muito este texto, mas não dá para falar de lesão medular sem mencionar as piores das sequelas – que são invisíveis aos olhos –: as quase esquecidas complicações internas. Geralmente, quando se vê um deficiente na rua, imagina-se que seu único problema é a imobilidade. Essa ideia, entretanto, é completamente equivocada, uma vez que as complicações internas são muito piores que a simples falta de movimentos. Bexiga e intestinos não funcionam, os rins ficam comprometidos, o coração tem que trabalhar dobrado para bombear o sangue nas áreas do corpo onde não mais têm músculos para ajudá-lo, a circulação fica comprometida, a falta de sensibilidade nos órgãos sexuais não permite que ejaculemos ou tenhamos orgasmos – ao menos na maioria dos casos. E – como se não bastasse – ainda temos que tomar extremos cuidados para evitar infecções de urina e as famigeradas escaras.


Também não poderia abordar este tema sem mencionar meu ídolo Christopher Reeve, popularizado nas telas do mundo inteiro como o melhor interprete para o maior herói que os quadrinhos já conheceram: o onipotente Superman. Reeve não foi Super-homem apenas na ficção, mas o foi principalmente na vida real. Em 1995, o ator caiu de um cavalo, quebrou o pescoço e ficou tetraplégico. Sua lesão foi bastante alta, obrigando-o a ter que viver sob o julgo de um respiradouro artificial e só conseguindo se movimentar do pescoço para cima. Após o acidente, passou meses fazendo fisioterapia, o que permitiu que respirasse por períodos cada vez mais longos sem a ajuda de aparelhos e ate conseguisse outras melhoras significativas por pura força de vontade e um esforço descomunal. Segundo se sabe Reeve no início até pensou em cometer suicídio, mas não o fez em consideração aos filhos, que o amava e queria junto a eles. Daí, nunca desistiu de voltar a andar e levar uma vida normal. Assim, criou a “Fundação Christopher Reeve para a Paralisia” e – entre outras coisas – foi pioneiro nas polêmicas pesquisas com células-tronco. Embora tais pesquisas tenham sido diversas vezes barradas pelo falso moralismo religioso, o ator não desistiu e gastou rios de dinheiro e toda sua energia, lutando indubitavelmente contra as adversidades e possibilitando o avanço das pesquisas ao máximo permitido pela ética. Não é errôneo afirmar que, se as pesquisas com células-troco avançaram até serem aprovadas em alguns Congressos – derrubando padres, bispos e pastores demagogos –, grande parte desse mérito é do inesquecível “Super-homem”. Infelizmente Christopher Reeve veio a falecer devido a um ataque cardíaco após um coma, sem ter realizado seu maior sonho: voltar a andar. Mas, ainda assim, continua um herói, pois seu esforço não foi em vão e seu legado propiciará o retorno à liberdade para muitos de nós. Em especial para as gerações futuras. E se Deus quiser – e ele sempre quer –, em bem pouco tempo.


Como Reeve, ou até mais que ele – pela falta de recursos financeiros e apoios físicos e psicológicos –, existem milhares de super-homens e supermulheres por aí. Belos exemplos são os para-atletas, que mesmo sem patrocínio adequado e quase sem apoio da mídia, superam seus limites e realizam feitos memoráveis, deixando no chinelo os atletas “normais”, que são fortemente patrocinados e endeusados pela mídia.


Embora vergonhosamente a preconceituosa sociedade nos veja como parias, não estamos mendigando ou buscando a execrável pena de ninguém. Muito pelo contrário, matamos dez leões todos os dias para termos nosso lugar ao Sol. Citando o slogan da Aparu – Associação dos Paraplégicos de Uberlândia –: “Subir na vida degrau por degrau?... Que nada, prefiro subir pela rampa.” Queremos rampas adequadas para adentrarmos os estabelecimentos comerciais e órgãos públicos. Queremos rampas para subir nas calçadas e livre acesso nessas, a fim de diminuirmos o risco de sermos atropelados. Como seres pensantes e contribuintes que somos – e por mais absurdo que pareça, nossos impostos são ainda maiores, pois qualquer artefato para deficiente é absurdamente caro –, queremos igualdade em concursos públicos e a garantia de que nossos direitos constitucionais realmente saiam do papel e sejam executados. Queremos ser respeitados como seres humanos iguais. Queremos viver em paz... Apenas isso, nada mais.




Nardélio F. Luz