quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Vamos Assinar!




Vamos Assinar!


Assinar esse abaixo assinado é uma questão de honra. É importante porque o país está precisando urgentemente de uma reforma previdenciária — bem como de muitas outras —, mas essa não tem que começar pelos aposentados de baixa renda, que trabalharam a vida inteira para conseguir seu benefício, tampouco por quem está doente ou possui algum tipo de deficiência que o impossibilita para o trabalho. Deve sim começar pelos políticos que basta oito anos (dois mandatos), nos quais a maioria nem faz jus aos cargos, para adquirirem aposentadorias astronômicas e outros benefícios absurdos que as pessoas que realmente dão suor e sangue trabalhando neste país nem sequer sonham. Isso é uma vergonha inenarrável, que só o povo — cada vez mais consciente da sua força e direitos — tem o poder para dar fim e recuperar essa enorme teta chamada Previdência, que tantos políticos safados mamam desavergonhadamente.

Nardélio Luz
290916


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Longa Vigília



Longa Vigília


Arqueado sob o peso das eras,
Que também consumiram as cores
Das coniformes paredes outrora fulgentes
E deram vigor aos fungos e trepadeiras,
Ele capenga com máximo esforço
Até a janela do lado poente.

O par de profundos olhos negros,
Estranhamente poupados apesar da idade,
Brilha em meio à profusão de pelos imundos
Em irregulares clareiras entre celhas e bigode,
Observando pela última vez — espera ele —
O oceano verdejante de copas abaixo.

Os poucos dentes apodrecidos,
Bem menos conservados que os olhos,
Esboçam um sorriso entre confuso e triste,
Noutra abertura entre o bigode e a barba enodoa.
O que as raças que habitam sob as copas verdes
Titulam de séculos, se acumularam.

É chegado o aspirado lusco-fusco,
Mas embora anseie pelo alívio do cansaço,
À medida que o astro maior se dilui em rubro
E o verde cede lugar ao negro dali até o horizonte,
O sorriso apodrecido sucumbe ao medo
Do aceitado fadário que o espera.

Um último olhar nas pinturas
Daqueles que bravamente o antecederam
Substitui o sóbrio temor por um orgulho tolo,
Mas quando garras negras adentram a janela leste,
Toda a vã altanaria cede aos gritos de horror
Que ecoam na íngreme torre milenar.


Nardélio Luz

150916

sábado, 3 de setembro de 2016

Soberba Utopia




Soberba Utopia


Se você estivesse aqui,
Nada precisaríamos dizer,
E nossos olhares se tocariam,
Num mudo convite para o prazer.

Se você estivesse aqui,
O mundo seria mais bonito,
A chama da paixão explodiria,
Acelerando este coração desdito.

Se você estivesse aqui,
Nem desta cama sairíamos!
Porém, se tivéssemos que sair,
Por certo rapidamente voltaríamos.

Se você estivesse aqui,
Viveríamos em puro prazer;
Abriríamos o seu vinho preferido:
Reserva especial de Chateau Duvalier.

Se você estivesse aqui,
Nada nesta vida iria faltar;
Retomaríamos a senda original,
Sorrindo, de mãos dadas a caminhar.

Se você estivesse aqui,
Seriamos únicos no Paraíso.
Ah, lembra-se daqueles passeios?
É reviver tais momentos que preciso.

Se você estivesse aqui,
Findaria minha velha solidão;
Pois já te busquei em muitos braços,
E isso jamais assossegou meu coração.


Nardélio Luz
030916

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Tempestade



Tempestade


Os estrondos da tormenta
Transformam meu refúgio
E a proteção dos retalhos
Liberta-me de fantasmas.

Reles engodo a tripudiar,
Posto que lá fora haja lua
E aqui estranhas estrelas
Salpicam a obscuridade.

Peculiar a mente salutar
E suas miríades de astros
Nascidos da inexistência
Para desabonar as trevas.

Bem que da tempestade
Nenhuma chuva ou raio,
Pois que qualquer prélio
Só existe dentro de mim.


Nardélio Luz
280816

domingo, 14 de agosto de 2016

Um Homem... O Homem!




Um Homem... O Homem!


Na sua simplicidade e retidão,
Mais que um homem comum:
Um celeiro de dignidade;
Um dos prediletos seres de Deus.

Assim era e é aquele homem...
Assim será para todo o sempre,
Através das passagens e do tempo,
No desempenho dos deveres seus.

Lembro-me com carinho e ternura,
Da minha impetuosa adolescência...
Das contendas minhas, não dele,
Em que, ainda assim, me defendeu.

Ensinou-me a caminhar ereto,
A respeitar os respeitáveis,
A distinguir os bons dos maus,
A partilhar o que acreditava meu.

De coração estreme e altivo,
Alma límpida, nobre, e gestos gentis,
Era grande, amigo dos amigos,
O cerne do bom sentimento.

Se hoje me sinto alguém,
Grande parte devo a ele...
Meu maior motivo de orgulho,
Mais que pai: exemplo e fomento.

De natureza pacifica e mansa:
Era assim meu nobre guerreiro;
Se nalgumas vezes gargalhava,
Noutras se enclausurava na solidão.

Todavia, à necessidade de alguém,
Estava ele lá, por inteiro, solícito;
Sempre rígido com os maledicentes,
E aos afáveis, todo alma e coração.

Foi meu mestre na arte da superação,
E certamente teria orgulho dos meus resultados;
Não pôde me ler ou tocar minhas medalhas,
Mas soube, sabe ou saberá um dia.

Pois é grande meu esmero para me tornar
O excelso reflexo dos seus ensinamentos;
E embora eu pare as noites para descansar,
Retomo reto a cada manhã que principia.

Desde aquele melancólico novembro,
Em que aqui findou sua cumprida missão,
Que a saudade aperta meu peito
E, forte, fustiga minha lembrança.

Contudo, sou um praticante do desapego,
E sem insurreição ou remorso o deixei seguir;
Crédulo que num dia poderei reencontrá-lo,
Na sua digna disseminação da esperança.


Nardélio F. Luz

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Livre-arbítrio

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Livre-arbítrio


Bem lá atrás tentaram me convencer
Que eu era escravo desse tal destino;
Mas é algo que não dá para conceber,
Tampouco crer em tamanho desatino.

Em minhas crenças, poucas, bem sei,
Predestinação não é uma que acredito;
Se estiver equivocado, um dia saberei,
Mas até lá, minha lei é o livre-arbítrio.

Entendo que alguns não concordarão,
Inclusive lhes presto franca reverência,
Pois se me seguissem sem ponderação,
Revelariam sinal de pouca inteligência.

Meu caminhar é na fleuma do cansaço,
Pois o que almejo no fim deste caminho
Não está sujeito a tempo nem a espaço,
Mas ao que aprender, mesmo sozinho.

As léguas cruzadas e o tempo passado
Roerão o corpo, mas não minha calma,
E o sopro do conhecimento acumulado
Levar-me-á aos anelos de minha alma.


Nardélio luz
100816

domingo, 17 de julho de 2016

Fuga




Fuga


É para lá das coisas que respiram
Que fica o reino ignoto de onde venho.
É um lugar que ninguém daqui conhece,
Pois quem lá esteve, por certo não voltou.

Lá, a noite se alarga além das horas tardias
E a lua furta a superfície da própria corrida,
Impondo o lampejo de estrelas estranhas,
Numa sinistra configuração alienígena.

Os líquens não escolhem lado para crescer,
Apenas abraçam o tronco podre como salvador,
Ainda que as negras águas oleosas do rio abaixo
Neguem a vida, à colônia ou ao débil suporte.

Seres pequenos e arredios, privados de almas,
Com formas indizíveis e texturas repelentes,
Se arrastam sobre os pântanos infestados,
Sorrateiros, caçando e sendo predados.

Entre cá e lá há um vácuo monstruoso
Arrebatando o sono de qualquer pensante;
Um precipício disforme de escuridão silente
Que engole a quem ouse encarar tal loucura.

Alertei-vos, senhores, pois que não intuiriam
A minha predileção por estas vis correntes...
Mil vezes a constrição eterna das grilhetas
Do que a agonia de lá ter que retornar!


Nardélio F. Luz