domingo, 2 de fevereiro de 2020

Introspecção



Introspecção

Gostaria tanto de te dizer o que sinto!
Mais do que dizer, gostaria de mostrar...
Mas embora às vezes te sinta tão perto,
Na maioria delas se encontra tão longe
Que o medo me isola na introspecção.

Sabe aquele medo ubíquo de errar...
De me exteriorizar, estar equivocado,
E, com isso, perder até a tua amizade?
É vero que não é amizade que almejo,
Mas, por ora, é tudo que tenho de ti.

Não posso sequer falar dos teus olhos,
Dessa tristeza imperceptível aos outros
E tão visível a este vigilante observador.
Por ora finjo não notar os risos forçados
Expulsando as sombras do teu coração.

Eu gostaria de ser um homem ousado.
Às vezes, em alguns aspectos, até tento;
Mas é fato que tu és a minha kriptonita
E se noutras situações ajunto coragem,
Se tratando de ti eu compilo fracassos.

Creio que o para sempre esteja bem ali,
Logo após dobrar a esquina do amanhã;
Porém sigo permitindo que infortúnios
De um longínquo e lamentoso pretérito
Continuem a ditar regras no presente.

Nardélio Luz
020220

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Eterna Namorada



Eterna Namorada

Conheci-te ainda menina,
Quando para a vida despertava,
Tão doce, tão meiga, tão bela...
Minha primeira namorada.

Aí perdemo-nos um do outro
E cada um seguiu um caminho.
E conquanto seguisse te amando
Restou-me continuar sozinho.

Ainda bailava na memória
O sorriso luminoso e casto...
A sedosa cachoeira castanha
Sobre ombros de alabastro.

Agora, tal qual num sonho,
Finalmente te reencontrei:
Tu, que jamais saiu de mim,
E por tanto tempo busquei.

Pois que nessa data especial,
Todos os dias nascem lindos:
Bendito seja teu aniversário!
Até os anjos estão sorrindo.

É pura benção estar contigo...
Em verdade, o que sempre quis.
Esqueçamos o tempo perdido
E permita-me te fazer feliz.

Nardélio F. Luz
210919

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Instante Mágico




Instante Mágico


Ela estava ali parada na areia úmida,
Imóvel como uma ninfa de mármore.
O olhar fixo em algum ponto distante,
Alheia à espuma que beijava seus pés.

Cenho franzido, chateada com alguém;
Uma aliança pendia do cordão de ouro,
Pouco acima da suave marca de biquíni
Que o decote não conseguia esconder.

Foi um momento mágico, um instante
Que durou mais que poderia parecer,
Entretanto, menos do que deveria ser
Para disfarçar meu transe hipnótico.

Temi que a minha atitude estranha,
Afinal pudesse ser mal interpretada.
Porém, refém das próprias reflexões,
Ela sequer notou minha presença.

O olhar fixo no horizonte nebuloso,
Como se enxergasse além do pélago,
Um algo mais de tristeza e mistério
Tal qual invisível a olhos humanos.

A lua tentava trespassar as nuvens,
Alheia ao turbilhão de sentimentos
Que de repente me tomaram inteiro
E arrebataram qualquer resistência.

Passei toda a noite sem nada dizer.
O coração perdido, descompassado,
A mente fervilhando sem coragem,
E a alma doída pelo que perdera.


Nardélio Luz
061119

sábado, 26 de outubro de 2019

A Dona da Rua



A Dona da Rua

Eu era mais um recém-chegado.
Tinha de outras paragens viajado,
Onde havia provado a tal desilusão.
Porém me bastara um rápido olhar
Para a calçada quase frente ao bar,
Onde afogava meu velho coração.

Tudo ao redor pareceu se ajustar,
Forçando até tempo a desacelerar,
Como a pena que no vento flutua.
Não era só mulher, mas uma fada,
Que ali flutuava sobre a calçada...
Era, sem dúvida, a Dona da Rua.

Meus olhos comiam as cenas
Das torneadas pernas morenas
Daquele short branco saltando.
Ela parecia alheia ao meu olhar,
Nem um sorriso veio a esboçar,
E já senti que estava amando.

O amigo que ali estava comigo
Disse que a Diva era um perigo,
Mas tampouco desviava o olhar.
Quando a paixão vem de repente,
Impulsiona o coração da gente,
E compete à alma se equilibrar.

Contudo a sorte me presenteou,
Pois ao passo que a noite chegou,
Soube que era mútua a aspiração.
Era o fim de qualquer sofrimento
E, entre regalos e arrebatamento,
Nos amamos com fúria e devoção.

Ambos transpirávamos paixão...
Quando juntos, éramos a junção
Do ardor do sol e a beleza da lua.
Embora noutros vivesse maldade,
Quando se tratava de felicidade,
Éramos eu e a Dona da Rua.

Nardélio F. Luz

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Prestes



Prestes

Um lampejo de sanidade
esgueira-se pelas bordas rarefeitas
de um inconciliável quase sono,
agarrando como pode à realidade
para não despencar no abismo
de horror que antecede
o atroz pesadelo.

Nardélio Luz
090919