terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sexualidade de Um Tetraplégico



Para mim é um prazer falar sobre sexualidade, pois embora vivamos em pleno século XXI, vergonhosamente esse assunto ainda constitui um tabu, mesmo para as pessoas “normais”, mas, sobretudo para os deficientes. Não é vergonha falar sobre sexo. Vergonha é não se informar, pois a falta de informações leva a julgamentos errôneos e conseqüentemente ao preconceito e discriminação. Muitas famílias tratam seus membros portadores de deficiência como crianças, restringindo – ou mesmo proibindo – seu acesso à vida sexual e até mesmo a outras necessidades básicas à subsistência, como dignidade, direito e felicidade de um ser humano. Tratam-nos como vegetais, como se a deficiência os privasse dos sentimentos junto à imobilidade física. E, o que é ainda pior, fazem isso por pura ignorância.

Há alguns anos, quando mergulhei de mau-jeito num rio e fiquei tetraplégico, cheguei a pensar que jamais sentiria os prazeres do sexo novamente. Mas, graça a Deus, eu estava equivocado, o sexo entre os deficientes existe, e feito de forma correta, com os devidos cuidados e a pessoa certa, é tão ou quase tão prazeroso quanto com os não deficientes.

Ainda nos primeiros dias de convalescença no hospital, embora o corpo estivesse totalmente paralisado, à proximidade de uma jovem enfermeira fui surpreendido por uma onda de tesão avassaladora. À aproximação da garota, pude captar seu perfume, e esse fato junto à visão das suas belíssimas curvas e da pele fresca aguçou minha libido a um patamar alcançado poucas vezes antes. Foi a partir dali que notei o quanto ainda sentia desejo e o quanto esse me perturbava. Foi uma época que também senti muita raiva, pois se meu corpo estava paralisado, sem nada sentir, para que o cérebro continuava gerando aquelas sensações todas? No mais, ainda que eu pudesse dar prazer a uma fêmea, que mulher ia se interessar por um corpo paralisado e pele sobre os ossos? Quem gosta de cérebro é zumbi!, tal pensamento me açoitava diariamente, sobretudo nas minhas intermináveis madrugadas insones.

Mas eu estava completamente equivocado, e os meses posteriores vieram a me provar isso. Ao sair do hospital, pedi a um amigo que me trouxesse tudo que ele pudesse conseguir na literatura sobre lesão-medular. O objetivo maior era estudar o máximo a respeito do meu problema, para não ter falsas esperanças no tocante a voltar a andar, mas também aprender algo sobre sexualidade pós-deficiência e os cuidados necessários para a manutenção da saúde do meu corpo. Nesses estudos descobri que, embora não seja por vontade própria, o pênis do lesionado-medular pode ficar ereto. Esse fato acontece à revelia do cérebro, causado por espasmos raque-medulares – os mesmos espasmos que levam as pernas de um deficiente a se moverem sozinhas. Ou seja, embora eu não o sentisse, através de estímulos externos meu pênis podia ficar ereto e, assim, eu poderia dar prazer a uma mulher. E na transa não é este o principal objetivo do homem, satisfazer sua parceira? A essa altura eu já tinha recuperado um pouquinho dos movimentos dos braços – que mantenho até hoje –, sobretudo no braço direito e, embora minha mão não se movesse, aproveitei um momento em que estava sozinho para tocar meu pênis e este realmente reagiu ao estímulo. Pronto, pensei feliz da vida, agora só falta uma parceira para realizar alguns experimentos. Não obstante, o maior problema continuava: que mulher ia se interessar por um homem quase totalmente paralisado?

O tempo foi passando e eu via minha paralisia cada vez com mais naturalidade. A libido estava cada vez mais ativa, sobretudo quando sentia o perfume de uma mulher ou a via em trajes sensuais – que num país tropical como o nosso é bastante comum, sobretudo porque a natureza é bastante generosa com as mulheres brasileiras. Tendo sido privado da vida sexual em pleno auge, aos trinta e um anos, meu cérebro parecia incendiar à simples lembrança de uma mulher nua nos meus braços. Minha boa memória tinha se tornado então uma espécie de maldição, pois eu lembrava nitidamente de cada detalhe das minhas transas passadas, de cada curva, de cada gemido, de cada tremor das minhas parceiras. Lembrava do cheiro, do gosto, e quase podia senti-los. Chegava a sonhar varias noites seguidas com transas e orgasmos deliciosos que tive no passado.

Gradativamente também fui percebendo que as partes que eu ainda sentia no corpo, como ombros, pescoço, orelhas e nuca, haviam se tornado muito mais sensíveis, a ponto de uma simples carícia me incendiar. Eu acabara de conhecer pessoalmente uma amiga com a qual me correspondia desde antes da paralisia. Era uma garota jovem, inteligente e belíssima, de corpo lindo e alma nobre. A primeira que buscou algo em mim além da aparência externa, que àquela altura já podia ser confundida com um ET – cabeça e barriga enormes, pernas e braços finos. O interesse da garota culminou em beijos e acho que só não foi além devido à falta de tempo e lugar apropriados. Sua virgindade não constituía obstáculo, uma vez que poderia ser preservada no sexo oral. Mas, enfim, o breve contato me mostrou que eu ainda podia beijar muito bem; e quão mais prazeroso havia se tornado o beijo na boca, com aquela nova sensibilidade à flor da pele. 

Vez ou outra eu locava um filme pornográfico para tentar aplacar o fogo que cada vez mais ardia dentro de mim. E, embora as cenas de sexo constituíssem uma tortura, era algo ao mesmo tempo gostoso, que me fazia desejar cada vez mais uma mulher. As sensações cerebrais eram extremas, chegando a causar tonteiras e pequenas vertigens, e o que eu mais desejava era ter a boca, o corpo e, sobretudo o sexo de uma mulher ao alcance dos meus lábios; poder explorar sua intimidade com a língua e os dentes, até senti-la se desmanchando. Eu sentia muita saudade de um corpo feminino estremecendo em meus braços, do suor, do cheiro, dos gemidos roucos, das palavras ininteligíveis. Eu queria mais que nunca sentir o gosto arrebatador da intimidade feminina.

Embora eu permaneça solteiro e minha filha tenha sido concebida antes do acidente que me paralisou, aprendi nos meus estudos solitários que a deficiência não impede a pessoa de ser amada, se casar, ter uma vida sexual e até filhos. O tetraplégico por lesão medular não ejacula normalmente, mas seu organismo continua produzindo espermatozoides. Sendo assim, seu esperma pode ser colhido e introduzido na parceira, possibilitando-os terem filhos legítimos. Devido à impossibilidade de ejaculação normal, o esperma produzido pelo tetra é expelido gradativamente junto à urina. Esse processo acontece de forma tão sutil que raramente é notado. Não obstante, estudos mais recentes me mostraram que já existem certos massageadores penianos que podem levar o lesado medular à ejaculação e, portanto, fecundar a parceira sem ser preciso recorrer ao processo cirúrgico – meio mais usado até agora. Aprendi que, embora o lesado medular – sobretudo o tetraplégico – não sinta o pênis, a ereção induzida por estímulos externos realmente o habilita a penetrar uma mulher e dar prazer a ela. Como em toda regra há exceção, em alguns casos a ereção não consegue atingir o ápice e, portanto, não há penetração, mas nem por isso a pessoa está indisponível para o sexo: basta-lhe usar a imaginação e explorar novas possibilidades. 

Aprendi que existem vários tipos de deficiência física, cada uma com sua peculiaridade. O deficiente por sequela de poliomielite – paralisia infantil –, assim como o paralisado cerebral, perde a capacidade motora, mas continua com a sensibilidade preservada, de forma que devidamente estimulado, pode chegar ao orgasmo e ejacular normalmente. Assim, pode conceber filhos sem as dificuldades implicadas ao lesionado-medular.

Na sexualidade do deficiente, é de suma importância a compreensão da parceira (o). O lesado-medular perde o controle da bexiga e dos intestinos, devido a isso – sobretudo aos de lesão recente – pode haver acidentes durante o coito, como a perda acidental de urina, ou em casos mais raros, de fezes. Pois, à revelia do controle cerebral, os movimentos podem estimular esses órgãos, acarretando os acidentes citados. Nessas horas especialmente é que a compreensão da parceira (o) se torna imprescindível; e até mesmo do próprio deficiente, que se vê de repente numa situação inusitadamente constrangedora. Portanto, o adequado a fazer é dialogar bastante, prevenindo ambos para a possibilidade de tais acidentes. No caso do deficiente que faz cateterismo – esvaziamento da bexiga por meio de sonda –, o correto é lançar mão desse processo antes do inicio do coito. Há também aqueles que usam sonda uretral diariamente, cujo tubinho deve ser devidamente ajeitado – dobrado paralelamente ao pênis – de forma a não machucar a parceira ou o próprio. Em alguns casos, como os citados acima, o ato sexual exige alguma preparação antecedente, mas nada que um pouco de paciência e bastante compreensão não possam dar jeito. O mais importante nisso tudo é saber que nenhuma forma de deficiência física impossibilita a pessoa dos prazeres do sexo.

Após o breve contato com minha amiga, percebi que embora meu físico não encorajasse, realmente existem mulheres que valorizam mais do que corpos bonitos. Desta forma, o que se tornara de suma importância na minha vida era preservar a saúde do corpo, mas principalmente cuidar do cérebro e coração. Numa das minhas viagens, reencontrei uma ex-namorada dos tempos áureos e, após alguns dias de reaproximação, eis que surgiu a oportunidade real de ter o corpo nu de uma mulher ao meu alcance. 

Ela tomava um gostoso banho matinal e passava o hidratante na minha frente, contorcendo o corpo de forma sensual e insinuante. Meus sentidos pareciam ampliados. O olfato captava o cheiro afrodisíaco do corpo recém-banhado e a visão daquela beldade fazia meu cérebro arder de desejo. Ela tomava todas as iniciativas. Estimulava minha bexiga com toques no abdome até a urina jorrar pelo canudinho, em seguida tirava o coletor e higienizava meu pênis. Ao toque da mão da moça, a reação era imediata e a simples visão do seu gesto causava um desejo tão arrebatador que não pode ser narrado com simples palavras. O tesão às vezes chegava a causar dores psíquicas, sobretudo quando ela usava a boca e a língua atrevida. Às vezes de lado – posição que durmo, escorado por travesseiros –, ela me virava de costas para o colchão e procurava a posição que melhor se encaixasse á minha condição inerte. Tendo sua intimidade totalmente ao meu alcance, eu usava a mão paralisada em garra, a língua, o nariz, o queixo e qualquer protuberância do meu corpo que pudesse fazer fricção e estimular seu clitóris. Ela se virava e beijava minha boca, minhas orelhas, meu pescoço, arrancando descargas elétricas da minha espinha lesada, depois ia subindo, fazendo minha boca gulosa descer pelo seu corpo ardente, até colocar os seios ao alcance dos meus lábios. Ali eu sugava e mordiscava os biquinhos intumescidos, sentindo os tremores e ouvindo os gemidos dela.

A menina direcionava meu pênis para sua intimidade. Nalgumas vezes a ereção era suficiente para penetrá-la, noutras não, mas isso não importava, pois o verdadeiro prazer estava nos nossos toques e gestos preliminares. A meu pedido, minha amante mudava de posição, deixando sua intimidade úmida e cheirosa novamente ao alcance da minha boca. Eu voltava à carga até senti-la estremecer e se desmanchar nos meus lábios. Era impressionante a facilidade que minha amiga tinha para atingir o orgasmo, e quão abundante era seu néctar íntimo. Desde nossos bons tempos de namoro que tais dons dela me impressionavam, pois quando eu chegava ao auge, ela já tinha feito duas ou três vezes. Em seguida ao gozo, ela se deitava ao meu lado, suada, ofegante, cheirosa. Costumava lamber carinhosamente o remanescente do seu néctar no meu cavanhaque – naquela época eu usava. Beijava minha orelha, meu pescoço, dizia palavras carinhosas, que eram imediatamente retribuídas, etc. Embora sempre ficasse a sensação de estar faltando algo, devido a minha incapacidade de ejacular e chegar ao orgasmo, eu me sentia bastante realizado por ter sido capaz de satisfazer minha parceira. Depois de alguns minutos de descanso, ao meu pedido ela voltava à carga, e todas as emoções se repetiam. E os dias, sobretudo as manhãs, se repetiram assim.

Passado algum tempo, reencontrei outra ex-namorada dos tempos de pós-adolescência. Eu não a via e nem tinha notícias há quase uma década e meia e no reencontro aconteceu algo como uma “paixão a segunda vista”. Com essa namorei oficialmente por cerca de oito meses e alguns mais extra-oficialmente e, embora ela não tivesse a mesma facilidade que a primeira para atingir o orgasmo, o sexo era muito prazeroso. Algumas vezes, nem com todos os artifícios orais eu conseguia fazê-la chegar ao ápice, mas aquilo não constituía problema, pois ela se masturbava para mim e aquela visão me excitava e dava prazer. Depois de atingir o orgasmo ela se oferecia novamente, inteira e sem pudor à minha língua gulosa, que sorvia tudo que tinha ou não direito. 

Quando se fala de sexo, automaticamente se pensa no coito, na penetração. Mas a grande verdade é que as preliminares é que fazem uma transa ser boa ou não. E a verdade maior é que para um casal ser feliz não tem que obrigatoriamente haver sexo, ao contrário, o que leva à verdadeira felicidade é o amor. O sexo é um complemento e um meio de extravasar a paixão, mas o amor em si é muito mais que isso. O amor verdadeiro independe até mesmo de contato físico, é basicamente psíquico: carinho, ternura, atenção, cumplicidade, proteção, paciência e respeito. O sexo por sexo é delicioso, mas infringe os sentimentos e incute uma parcela de “culpa” após o ato. O sexo com amor é divino, transcendental, arrebata o físico, extasia a psique e aproxima as almas. O mais importante realmente é que, com sexo ou não, havendo amor, a felicidade está ao alcance de todos e isso independe de ser ou não deficiente.

No mais, a maior deficiência que existe é a da alma, que gera discriminação e preconceito. Esses sentimentos sórdidos levam infelicidade ao ser, mas somente quando ele se permite atingir, do contrário, a coisa funciona como um espelho, refletindo a negatividade à pessoa que a gerou.



Nardélio F. Luz

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