sábado, 26 de outubro de 2019

A Dona da Rua



A Dona da Rua

Eu era mais um recém-chegado.
Tinha de outras paragens viajado,
Onde havia provado a tal desilusão.
Porém me bastara um rápido olhar
Para a calçada quase frente ao bar,
Onde afogava meu velho coração.

Tudo ao redor pareceu se ajustar,
Forçando até tempo a desacelerar,
Como a pena que no vento flutua.
Não era só mulher, mas uma fada,
Que ali flutuava sobre a calçada...
Era, sem dúvida, a Dona da Rua.

Meus olhos comiam as cenas
Das torneadas pernas morenas
Daquele short branco saltando.
Ela parecia alheia ao meu olhar,
Nem um sorriso veio a esboçar,
E já senti que estava amando.

O amigo que ali estava comigo
Disse que a Diva era um perigo,
Mas tampouco desviava o olhar.
Quando a paixão vem de repente,
Impulsiona o coração da gente,
E compete à alma se equilibrar.

Contudo a sorte me presenteou,
Pois ao passo que a noite chegou,
Soube que era mútua a aspiração.
Era o fim de qualquer sofrimento
E, entre regalos e arrebatamento,
Nos amamos com fúria e devoção.

Ambos transpirávamos paixão...
Quando juntos, éramos a junção
Do ardor do sol e a beleza da lua.
Embora noutros vivesse maldade,
Quando se tratava de felicidade,
Éramos eu e a Dona da Rua.

Nardélio F. Luz

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Prestes



Prestes

Um lampejo de sanidade
esgueira-se pelas bordas rarefeitas
de um inconciliável quase sono,
agarrando como pode à realidade
para não despencar no abismo
de horror que antecede
o atroz pesadelo.

Nardélio Luz
090919

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Sobre o Amor




Sobre o Amor


Não podemos esquecer que um dia todos vamos morrer e tudo que é material ficará aqui. Não seremos lembrados pelo que temos, mas pelo que fazemos. Isso não significa que você não deva adquirir o suficiente para seu conforto e de sua família, mas sim, que todo o excedente é obsoleto. E, sobretudo, não relegue a um depósito aquilo que não te serve. Às vezes o que é lixo para si é tesouro para outro. O que é migalha para si pode ser o que o outro precisa e não tem. Para a posteridade, só o amor é real. É um sentimento tão especial que quanto mais o esparze, mais cresce e te faz crescer com ele. Não procrastine, ame hoje, faça hoje, fale hoje, mostre hoje... Viva hoje! Amanhã é apenas uma ilusão, que pode se tornar real, ou não.

Nardélio Luz
010819

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Indelével





Indelével


Nesse misto de pantera mansa
Com o fragor indômito da razão,
Não finda minha parca esperança,
Mas não permite aflorar emoção.

De mulher com ação irrefreável
À encantadora fêmea na alcova;
Personagem deveras admirável,
A poesia de Fellini à Almodóvar.

Ainda que por uma única noite,
Deixaste tuas marcas no meu ser,
Agora a saudade é como o açoite,
Mas ainda acalenta o meu viver.

É uma imensidade do que é bom
E tudo o que vale a pena recordar,
Dos mais de 50 cinzas, único tom,
O pecado que anseio perpetrar.

Quiçá só habite minha memória,
Pois que insiste jamais te esquecer;
Ainda trago tão belos dias de glória
Tatuados numa noite de prazer.

Mesmo que a razão tente vencer
E o coração seja relegado a depois,
Ouça o que a tua alma está a dizer:
Todo futuro se resume a nós dois.
  
Nardélio Luz

sábado, 1 de junho de 2019

Agonia




Agonia


Desencantos mil dessa treva pervígil,
Em que se perpetuam delírios febris;
Numa orla que a luz, espada incisiva,
Não penetra a horda de imagens vis.

Redemoinhos de desalentos gélidos
Osculam a ardência do suor pegajoso;
O corpo definha dentre o gelo e o fogo
E a mente flutua no limbo brumoso.

A busca maquinal por futura manhã
Aspira uma trégua pra alma cansada;
Onipresente ansiedade, pior das vilãs,
Delegando crueza à servil madrugada.

Não há clemência na zona limítrofe,
Submetido a ritos e delírios insanos;
Aonde a luz se despe de todo o poder,
Incutindo aflição a esse orbe arcano.

Uma noite, quiçá, um sonho retorne,
Conduzindo um bálsamo pra solidão;
O horror da insônia afrouxe esse laço,
E o sono aplaque este velho coração.


Nardélio Luz
300519

quarta-feira, 6 de março de 2019

Balada Pra Felicidade




Balada Pra Felicidade


Minha filha, você é a luz do meu caminho,
É assim desde que nasceu, desde sua menor idade;
É a minha progênita, minha vida, o meu carinho,
É a minha harmoniosa balada pra felicidade.

Você possui o calor e todo o esplendor do sol,
É pura luz humana, é a própria candura;
Nas escuras noites de chuva é um potente farol,
Que consegue dissipar toda a minha amargura.

De uma doce menina a uma grande mulher,
Por todos os caminhos e prismas você brilha;
Como a admirável guerreira que mantem a fé,
É uma zelosa mãe e não menos amorosa filha.

Sabe... Em alguns pontos, quiçá bem distintos,
Acredito que a este velho bobo você puxou.
E por isso, você nem imagina quanta alegria sinto,
E nem mesmo o quão orgulhoso eu sou.

É... Eu sei que nunca fui um pai perfeito
E nem lembro quantas vezes com você eu falhei;
Mas a despeito de todos estes meus defeitos,
E mesmo estando ausente, eu sempre te amei!

Hoje, que você cresceu e pensa como mãe,
Acredito que pode melhor me compreender...
Sabe que há circunstâncias que às vezes se impõem,
E que nem sempre depende do nosso querer.

A vida é formada de tropeços e aprendizados...
Tudo para a nossa evolução, é nisso que creio;
E se é para aprender que estamos todos fadados,
É por tais oportunidades que vivo e anseio.

Sou ciente que nunca concebi qualquer feito maior,
Nas minhas vidas antigas e nem nesta recente,
Mas do meu pouco, você é o que fiz de melhor:
É minha amada filha, minha única e preciosa semente.


Nardélio Luz
210219


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Amada Feiticeira




Amada Feiticeira


Ela nem de longe é um ser cruel,
Tampouco possui vara de condão;
É, pois sim, um pedacinho de Céu,
Que seduziu meu cético coração.

No início até que tentei resistir...
Ah! Decerto com empenho tentei!
Mas, então, optei por não insistir,
Já que desde o princípio a amei.

Nem todo feitiço é malfazejo...
Esse é um belo exemplo de amor:
Todo meu corpo arde em desejos,
E até minha alma é puro ardor.

Nenhuma história é só de flores,
Também tivemos nossos espinhos;
Apesar de termos nossos temores,
A magia os removeu do caminho.

Ela por vezes me beija no vento,
Na brisa que adota a madrugada;
Fêmea de pura magia e portentos,
É a mulher, é minha doce amada.


Nardélio Luz
160219