terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Morto

Imagem: https://pixabay.com/

Morto


Ah, sim! Ocorreu há muitos anos já,
Quando um certo homem errava, ali e lá,
Usando e abusando do seu livre arbítrio.
Padecia a dor da perda de um amor recente,
E naquela condição áspera, carente,
Buscava um bálsamo, o alívio.

Ele chegou a um lugar encantado,
No berço amado de um povo educado,
Um verdadeiro oásis, tamanha a grandeza.
E tanto a população que o lugar habitava,
Quanto aquele verde que a tudo abraçava,
Exalavam vida, alegria, e rara beleza.

Ali, muitas amizades ele conquistou,
Até mesmo superando aquelas que deixou,
Em terras longínquas, nas suas difusas andanças.
Não demorou muito e veio o presente inesperado,
Uma mulher, uma bela amante, um anjo adorado,
Dali a sempre, a senhora das suas lembranças.

A primeira paixão, chamou de “falecida”,
A lúgubre quimera foi extirpada e esquecida;
E enfim, ali findavam suas insuportáveis dores.
Então a nova e veraz idolatria se fez presente,
Inebriando o homem, no coração e na mente,
Era o mais puro e mais ingente dos amores.

O corpo: um rito, o altar da deusa venerada,
O sexo: desvario, fêmea em fogo, encantada,
Uma arte da loucura, a mais portentosa paixão.
A alma era nobre e elevada: pura divindade.
A mente: privilegiado intelecto, sagacidade,
O limite altivo, o cerne da admiração.

Como sempre, a vida seguiu seu rumo,
E o homem, terno amante, seguiu no prumo,
Era, maiormente, dono das essenciais faculdades.
A mulher, um grande exemplo, amada e seleta,
E assim foi, por muitos anos prosseguiu reta,
Na tarefa nobre de difundir a felicidade.

Porém, o inquieto homem errante,
Buscou de forma vil, obtusa e ignorante,
A fuga do que considerava enfadonho: a rotina.
Sem muito pensar, sucumbiu ao primeiro ensejo,
Entregando-se de pronto a um errôneo desejo,
Mergulhou nas trevas, iniciou a própria ruína.

A doce amada, chorosa e combalida,
Ficou exposta às mazelas daquela vida,
E sem um apoio, finalmente desencantou.
O demônio disse que era parte do destino,
E, fosse ou não, por desleixo ou desatino,
A sublime relação – enfim – tombou.

O homem passou a viver na boemia.
Perdido, nem estranho, nem amigo ouvia,
E errava de bar em bar, entregue à degradação.
Perambulava pelos guetos em horas tardias,
E o remorso decidiu por findar seus dias,
Na madrugada: um estampido, solidão...

Àquela alma, nada de luz ou perdão,
Rasteja no lodaçal de melindre recordação,
Exceto o escárnio do mesmo demônio, nada há.
Ali o dia é negro, tornando a noite fria e perene,
Na insânia, o homem gargalha, o verme geme;
No negrume, só a lembrança a lhe destroçar.

Se permitissem breve vislumbre... “Ah, Eva!”
À mui amada um breve “oi”, então de volta à treva,
Mas nada pode ser lícito nesse limbo escuro e ignoto.
O hilário no purgatório é que, embora eu nada pedisse,
De forma peremptória, o demônio certa vez me disse:
“Tu és esse homem, e, há tempos, jaz morto”.


Nardélio F. Luz


(Obra publicada na antologia internacional “Margens do Atlântico”, ed. Abrali)

2 comentários: